Quinta-feira, Novembro 29, 2007

Um naco na pedra

O António Gonçalves era de méritos reconhecidos na mesa de rámi e como narrador testemunhal nalgumas das maiores pancadarias em jogos do Vitória fora da Picheleira. Estranhei por isso a saída para o campo literário-tecnológico:

- Vi o teu blogue, pá. Tens viajado muito.


Para quem tem um blogue cuja principal característica é estar em banho-maria, foi bom de ouvir. Fez-me lembrar de horas a escrever sobre sítios e situações. Revi rapidamente na minha cabeça alguns dos textos e enquanto…


- Mas quando é comes o naco na pedra?

Pronto, já faltava. Há 13 meses decidira-me a escrever um texto sobre uma refeição em plena Grote Markt de Antuérpia. Havia coisas a escrever. Mas, entretanto, à falta de tempo e inspiração, ficou só o título.


Desde en- tão, foi ali que o Gon- çalves me desejou uns Felizes Natais de 2007 e 2008, que o Je fez este ano o mesmo e que, por fim, o companheiro Waick Bannon me deixou um abraço de Bom 2009.


Custa-me, por isso, ter que levantar os pratos. Mas era quase uma injustiça histórica deixar a mesa mais tempo assim. Antes que cheire mal, siga então para raspagem.


Texto escrito a 31 de Dezembro de 2008. Muito a tempo, portanto.


Segunda-feira, Outubro 01, 2007

Despertares (Moremi-Savuti, 28.04.2003) *

Ainda não eram 6 da manhã. No horizonte, uma cor púrpura tingia o céu, prometendo mais um dia de calor. Pela picada, o camião Mercedes avançava com os faróis ainda acesos, espalhando à passagem uma fina película de areia dourada. Ainda estávamos dentro das fronteiras da reserva de Moremi. Mas se a viagem corresse sem acidentes, chegaríamos a Savuti pelo meio do dia.

Na maior parte do tempo, fazíamos o caminho a dormitar. Uns encostavam-se costas com costas, num precário equilíbrio a que os solavancos não ajudavam. Outros deitavam-se agarrados aos sacos-cama, tentando combater o gelo da madrugada. Ao sexto dia em África, já estávamos habituados a descansar no meio do desconforto.


De vez em quando, uma raiz mais atrevida emboscava-se na estrada e atirava ao ar uma ou duas rodas do camião. Como os amortecedores já há dias que davam mostras de cansaço, o Mercedes aterrava na picada no meio de um estrondoso ribombar de molas e aço.

Depois do solavanco, ficava o caos. As mochilas tombavam dos bancos vazios que ocupavam, os chinelos só voltavam a aparecer três fileiras mais à frente e ouviam-se um babel de imprecações. E, ocasionalmente, um ou outro passageiro que tinha sido apanhado na voragem era visto a levantar-se do chão da coxia, inspeccionando um novo arranhão num joelho ou cotovelo.

Nessas alturas, estimulado pelo safanão, pelo chilrear das rolas ou pelo Sol que ia mostrando o cocuruto, havia quem desse jeitos de acordar. Abria os olhos num arregalo, voltava a endireitar-se no banco e ocasionalmente bocejava e espreguiçava-se como se estivesse decidido a começar o dia.

Só que então voltava-se a sentir a lona dos assentos ainda húmida da noite. E percebia-se que o bocejo fizera uma pequena nuvem no ar ainda frio. Então, puxavam-se as mangas da sweat-shirt pelas mãos abaixo, reencaixava-se a cabeça entre os ombros e esperava-se alguns gélidos minutos pelo sono que haveria de reaparecer.


* Texto escrito em meados de 2005 e hoje publicado como análise comparativa à madrugada do último Sábado em que o meu filho se comportou como um hipopótamo raivoso.

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Domingo, Setembro 30, 2007

A Morte em pele e osso

É automático: sempre que oiço a palavra Bologna penso nas camisolas do principal clube da terra. São azuis escuras e vermelhas escuras, com cada cor em sua risca grossa ao alto. No conjunto, são tão alegres quanto uma tarde de Inverno. Mas, sobre os relvados enlameados do Norte de Itália, formam um quadro duro e vigoroso, como armaduras alinhadas para a batalha.

No segundo seguinte, penso na mesma camisola já vestida por um checo de cabelos longos e 1 e 94 de altura. Meio tanque de guerra, meio reincarnação de Átila, Tomás Skuhrávy era sobretudo um temível ponta-de-lança com futebol feito de tensão e músculo. Lembro-me dele e revejo de seguida golos pouco artísticos ao segundo poste ou cabeçadas a dizer que sim a um cruzamento de El Pato Aguilera. E é mais ou menos por essa altura, ao recordar o nome do uruguaio, que me dou conta do erro.

Estava novamente confundido. Se era a quinta ou a sexta vez já não tinha a certeza. Certo é que me tinha voltado a enganar. Não nos cenários, pois as camisolas sombrias e o possante Skuhrávy eram bem reais. Só que tudo isto existia numas centenas de quilómetros ao lado. Não em Bologna, mas em Genova.

É que desde que me lembro que, mesmo não conhecendo nenhuma das cidades, sempre confundi uma com outra. Se a Genova-portuária-e-futebo- lística ainda ocupava um pedaço do meu imaginário, já para Bologna falhavam-me as referências. Verdade seja dita, Bologna não passava para mim de um familiar mal-entendido. Só que estava destinada a não permanecer assim durante muito tempo.

Há três semanas, de um modo pouco menos que acidental, descobri Bologna. Imediatamente, senti-me a ser aspirado para um ambiente de sombras. Bizarra e espectral, esta cidade de antiga cepa fez-se assim um desejo para um dia de aguaceiros.

Tudo poderá começar pelos corredores do Museo Zoologico, onde olhares vítreos espreitam por detrás dos nossos ombros. Ali, macacos, ursos e lagartos parecem ter sido tocados pelo Doutor Frankenstein da taxidermia. Hoje nada lhes resta que tenha a ver com vitalidade. São apenas espécimes com esgares de dor ou raiva e que parecem ter sido torturados mesmo após a morte. Como se os alfinetes do taxidermista os tivessem esvaziado da sua alma, legando-lhes uma sub-vida de sofrimento. Nas prateleiras do Museo Zoológico, alinham-se num espectáculo de monstruosidades legendado em letra antiga. É que algumas daquelas estatuetas tinham sido esvaziadas das suas entranhas há quatro séculos atrás. E hoje ali estavam em desesperado abandono, parecendo exibir a expressão que tinham no segundo anterior ao momento da sua morte.

No número 48 da Via Irnerio fica o Museo delle Cere Anatomiche. Ao contrário do que o nome poderia fazer supor, não se reedita aqui qualquer Madame Tussaud. Aliás, não se aconselha a visita a quem procura o divertimento leve. Aqui, mesmo com a incógnita do que é verdade ou mistificação, o que se mostram são os infelizes desenlaces da vida humana.

Aos moldes em cera a retratar malformações genéticas juntam-se os esqueletos fetais atirados à condição de curiosidades médicas. Não fosse o pudor com que se olha a morte infantil e ter-lhe-iam chamados o Museu das Anormalidades. Fiquei com que a ideia que quem ali entrar passará a ter uma imagem bem vívida de pesadelo quando ouvir “Menino ou menina? Que venha perfeitinho é o que interessa”.



Ainda tocada por um véu de trevas mas já fora do velho centro da cidade, fica a Chiesa della Santa. É aqui que, em pose de macabra santidade, descansa Caterina de Vigri.

Do mesmo modo como a cidade de Bologna terá mais para ver do que estes escuros caminhos, também esta Igreja da Santa nos aparece como um belo templo de dourado silêncio. Mas é fora dos nossos olhares mais imediatos que, sentada num trono de morte, fica a sua mais valiosa relíquia: a múmia negra de Catarina.

Num quadro de inesperada ternura, Catarina está vestida de freira e tem nas suas mãos uma cruz dourada. Já assim está há muitos séculos, imóvel e incorruptível, escurecendo dizem que pela influência das velas. Já vi múmias no Museu Egípcio do Cairo e, na sua perseverança, parecem ter uma expressão de quem fixa por muito tempo uma lâmpada. Aguentaram quedas de civilizações, mas ninguém as arrisca à ininterrupta exposição. Assim, de vez em quando são recolhidas e trocadas por outras.

Mas, ao que é dito, Catarina não abandona a vigilância da sua congregação. A sua face e as suas mãos estão negras e o seu rosto parece cada vez mais definido. Só que, no seu pedestal, Catarina parece consciente da sua santidade. E, apesar de horrível, não deixa de me assombrar para uma visita à atmosférica Bologna.

Hoje, sei que se foram os breves segundos de dúvida: o checo jogava no Genova.


Agradecimento a Curious Expeditions pela epifania e pelas imagens (excluindo a primeira, de autor desconhecido).

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Terça-feira, Setembro 18, 2007

Maine no Outono

Para mim, a América é verdadei- ramente uma questão de tempo. Há-de chegar um ano, na altura que for a certa. Sem pressas. Porque a minha América – o país – também tem que esperar pela roda dos anos. Paradoxalmente, é uma América paciente e contemplativa. Porque tem tudo a ver com o tempo.

Quando for Outono, vou querer estar no Maine. Se tiver sorte, hei-de dar por mim a acordar numa cabana com coisas penduradas e tinta branca a esfoliar-se das paredes. Chegando à janela, vou encontrar o quadro que me puxou para aqui: a folhagem em múltiplos tons de fogo. E está sol. Deve estar frio, mas também está sol.

Ao sair para o bosque, puxo a gola para cima. Vejo ao longe uma antiga camioneta Ford. Está abandonada e só mesmo a ferrugem é que lhe encontra utilidade. Olho para dentro do tablier e encontro uma pequena poça de água junto aos pedais. Depois, sigo o carreiro, pensando que no caminho de regresso tenho que levar lenha para a lareira.

Durante meio quilómetro, acompanha- -me um ribeiro que gargareja de encontro às pedras. Depois, chego à ponte. É uma ponte antiga de madeira, daquelas cobertas. O sol continua a acompanhar-me e agora está a espreitar através das frinchas na madeira.

Quase sem me aperceber, o porto surge-me à vista, aos pés de um horizonte cor de chumbo. Enquanto o tempo passava, as nuvens foram-se encastelando por cima dos barcos que hão-de sair à pesca da lagosta. Em fundo, o Oceano promete o apocalipse em ondas de seis metros. É o Inverno que ameaça, endurecendo os dias dos que aqui vivem todo o ano.

Percebo que a partida já esteve mais longe. Marchando inexoravelmente, Novembro está quase no fim. Então, sinto que outros sítios me esperam. É tempo de New York.

Fotografias de ToniLuca, Vincent's Images, shrike1964 e l'insouciant1

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Terça-feira, Setembro 11, 2007

Lição de Geografia

- Recent polls have shown a fifth of Americans can't locate the US on a world map. Why do you think this is?

Miss South Carolina, pestanejou duas vezes e, sem perder a face, respondeu:
- I personally believe... that U.S. Americans are unable to do so... because, uh, some... people out there in our nation that don't have maps... and I believe that our education like such as in South Africa... and, uh, the Iraq... everywhere like such as. And I believe that they should, uh... our education over here... in the U.S. should help the U.S. and should help, uh, South Africa and should help the Iraq and the Asian Countries. So will be able to build up our future.

A parte final é apenas uma montagem, mas isto aconteceu há um par de semanas no extraordinário Miss Teen USA.

Já para si, que até sabe as capitais do Corno de África, isto não vai custar nada. E, caso queira, pode até escolher ser loura.

Só uma nota: faz vício.

Sábado, Setembro 08, 2007

De tapete voador

Noite após noite, a opinião cresce na cabeça de Sven: o Médio Oriente é uma região com fraco saneamento básico onde gente de discutíveis ambições se anda a explodir em mesquitas e centros comerciais.

À distância de quatro ou cinco fusos horários e no conforto do prime time, tudo o que o dinamarquês (ou um canadiano ou austríaco) vê parece desafiar a inteligência. Mulheres de negro a prantearem com as mãos no ar e um sapato sem pé que jaz numa rua coberta de detritos. Pode ser em Ramallah, Tel-Aviv ou Kerbala, “confesso que já não presto atenção”. Judeus ou muçulmanos, libaneses ou iraquianos. Vista do Ocidente, a banalidade já fez esmorecer a consternação.

Ninguém duvida que no Médio Oriente as diferenças de opinião são frequentemente discutidas num alto patamar de brutalidade. Aqui, poder-se-ão criar inimigos mortais apenas por se ter nascido. Seja-se do mesmo país, da mesma raça ou da mesma religião. O sunita não partilhará do prato do xiita e o sírio será olhado com desdenhoso receio pelo libanês. Mas, na sua voraz senha colonialista ou imperialista, os Ingleses, os Franceses e agora os Americanos nunca fizeram mais do que piorar o que vieram encontrar. Tudo começa na própria definição de Middle East, vastamente criticada pelo seu eurocentrismo (mais de metade da população mundial está a Oriente do Médio Oriente). No seu papel de umbigo do mundo, as potências europeias decidiram ainda decretar a prioridade à identidade nacional e à política de fronteiras sobre a visão religiosa.

Historicamente, a raiz dos repetidos fracassos ocidentais no Médio Oriente tem sido a despreocupada ignorância. Ultimamente, na mesma linha de ligeireza, a exportação principal são sistemas políticos: ”Wolfowitz, você que é filho de uma família de judeus de Varsóvia vai-me ajudar a pôr aqueles iraquianos a viver em democracia. Não se preocupe muito com detalhes. Tenho passado anos e anos a negociar petróleo com os Árabes. Eu vou coordenando os passos”. Porque tudo isto se passou praticamente anteontem, ainda nos consegue parecer mais risível. Mas como, Senhor Bush, a ignorância não passa de uma etapa a caminho da luz, aqui vai.

Faz sentido começar pela religião. A principal religião no Médio Oriente é o Islamismo. Entenda-se assim que não há nada com o nome de Muçulmanismo. Há é ser-se Muçulmano, ou seja professar o Islamismo.

Maomé é tido como o fundador da religião islâmica e o último mensageiro da palavra do Deus Alá. Mas, ao morrer sem sucessão, deixou aberto o caminho para a divisão do Islamismo em dois ramos principais: o Sunismo e o Xiismo. Os primeiros (cerca de 85% do número total de muçulmanos em todo o mundo) defendiam que quatro califas eleitos deveriam assegurar a continuidade, enquanto os Xiitas opinavam que Ali ibn Ali Talib – como primo e cunhado de Maomé – seria o legítimo sucessor.

Fechando o capítulo religioso, entro no étnico: ser Árabe não é o mesmo que ser Muçulmano. É-se Muçulmano como se é Cristão e é-se Árabe como se pode ser Chinês. E um Chinês pode ser Muçulmano, assim como há Árabes Cristãos. E Árabes Judeus.

No Médio Oriente, abundam os grupos étnicos: já se falou dos Árabes, mas ainda existem os Persas (sobretudo vivendo no Irão, onde apenas 3% da população é Árabe), os Turcos, os Judeus (cujo nome da religião é o mesmo do grupo étnico; ou seja, há seguidores de Alá que pertencem há etnia judaica), os Azeris, os Berberes, etc.

O Médio Oriente não é fácil de compreender. Eles mesmo, os que lá vivem, têm grandes dificuldades de entendimento. Mas, nesta linha de consenso e paradoxo, uma coisa tenho que dizer: sinto-me desejoso de lá regressar. Já vão fazer cinco anos que no Cairo vivi os mais atmosféricos e intemporais momentos da minha vida de viagens. E se há uma cidade, também uma capital, onde sinto que posso esperar o mesmo é Sana’a.

Pelos desertos e montanhas do Médio Oriente, não deverão faltar terras que não mudaram de rosto em séculos de existência. Só que essas estarão separadas por estradas de morte e desfiladeiros insuperáveis. A Sana’a, a capital do Iémen, chega-se de avião. Mas deverá ser percorrida de tapete voador…

No último ano, Sana’a foi-me apresentada pelo Trofimov, um ucraniano com cidadania italiana e experimentada pelo Horwitz, um judeu americano. Anteontem, o Eric Hansen (que ainda não conheço) prometeu falar-me mais daquele país onde todos mascam khât nos tempos livres e as mulheres têm uma média de 7 filhos.

Mas, não deixando de agradecer todas as ajudas, o que quero mesmo é cruzá-la de tapete voador.

Infografia de FOXnews.com e fotografias de Mideastimage e Eesti

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Sexta-feira, Agosto 31, 2007

Ventos do Norte

É na Dinamarca, na península da Jutlândia, que fica o farol de Rubjerg Knude. Durante quase 70 anos, foi um sinal de esperança para os navios que faziam as agrestes rotas do Norte. Em 1968, a subida das areias impediu-lhe a luz de ser vista no meio das intempéries. Hoje, é apenas mais uma prova de que o Mar do Norte é uma batalha perdida à nascença. Ali não se dão tréguas.

Já na Escócia, na estreita Crovie, eu tinha sido testemunha dos seus rigores. Ainda naquela altura, a terra mostrava as marcas de um terrível dia de Janeiro do ano de 1953. Os ventos árticos tinham empurrado um descon- trolado Mar do Norte costa adentro e feito de Crovie uma aldeia deserdada.

Cinquenta anos e sete meses depois, percorri a Costa de Banff e parei em Crovie. Não vi lá absolutamente ninguém. O Mar do Norte brilhava debaixo de um morno sol de Agosto.

Imagem de Rubjerg Knude propriedade de cheeweng

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Quinta-feira, Agosto 30, 2007

Ancorados no cemitério

Por motivos que explico com dificuldade e na verdade nem eu bem entendo, tenho vontade de ir à Mauritânia.

É um país pobre e desolado que nasceu das areias do Sahara e que pelas mesmas areias é habitualmente coberto. Para a Mauritânia não há pacotes turísticos e até mesmo os backpackers tendem a olhá-lo com um distante sorriso de complacência. Na verdade, é extraordinariamente provável que ao longo da nossa vida, ninguém nos diga com um entusiasmado esfregar de mãos: “Amanhã, parto para a Mauritânia. Nunca mais chegava o dia!”

A Mauritânia tem um fado geográfico que pesa tanto como o seu terrível sol do meio-dia e que não faz suscitar grande fervores à sua visita. Entre fronteiras, pouco mais há que paisagens de interminável e poeirenta planura. Ao sair-se do país, tem-se a Norte os milhões de minas terrestres do Sahara Ocidental, a Nordeste a imprevisível Argélia e para Leste os bandidos que vigiam os postos fronteiriços com o Mali. Ou seja, lá dentro pouco há que fazer, mas sair pode não ser a melhor opção. Mesmo assim e tudo pesado, tenho vontade de ir à Mauritânia.

Habituei-me a pensar que um país com magros pontos de indiscutível interesse dá-nos sempre algo que os outros não têm. Aqui, porque tudo é árido, cada novo encontro tem um sincero empenho, um verdadeiro toque de vida. E de cada vez que vemos a tremeluzir aos 47 graus que aquecem o horizonte um qualquer volume (mesmo que coberto da ferrugem dos anos) podemos estar a cruzar-nos com uma lembrança para todo o sempre.

Apesar de ninguém saber muito da Mauritânia, há uma mão-cheia de pessoas que lhe conhece um feito particular: aqui corre o que é alegadamente o mais longo comboio em todo o mundo. Vai carregado de minério de ferro e as suas 4 locomotivas chegam a arrastar mais de duzentas carruagens até à cidade de Nouadibhou.

Em Nouadibhou, espere-se encontrar uma terra esquálida, com rumores de ser manipulada pela máfia nigeriana e aproveitada para campo de treino da Al-Quaida. É só a segunda maior cidade do país, mas já é capital no contrabando de meteoritos e um dos principais portos de embarque dos clandestinos que procuram as Canárias. Enfim, lá trafica-se em expectativas.

Contudo, se um dia chegar a NDB é para perguntar onde fica a baía. Alguém me há-de responder, estranhando o porquê de tão insólito destino. Ali só há areias manchadas e carcaças de metal ferrugentas. Mas é este puzzle em constante preenchimento o que mais me move até à Mauritânia. Porque é aqui que cerca de 300 embarcações se juntam num dos mais estranhos cemitérios de que há memória. Umas não resistiram aos humores do Atlântico, outras foram ali deixadas para morrer. Não é um ambiente de cor e alegria. Mas os cemitérios são assim mesmo.

Imagens de TAFAT e Google Maps

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Domingo, Agosto 26, 2007

O Grande Branco

Há quatro anos e meio que já conheço preços, itinerários e rotinas. Não é difícil: por 115 €, o histórico Brian McFarlane empresta-nos uma jaula e larga-nos nas águas quentes de Gansbaai.

Depois, é esperar que o engodo o atraia para junto do Predator II e assistir gelado aquele olhar de morte que nos rodeia uma, duas, muitas vezes.

E sempre que me voltam a reavivar a ideia (agora a culpa foi da Forbes Traveler), cá fico eu a pensar que já faltou mais tempo para descer.

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Fogos Gregos

Naqueles dias da Idade Média, a credulidade era uma auto-estrada para as vozes em surdina: os gregos tinham conseguido dominar o fogo.

Provavelmente, teria sido algum embriagado veterano das batalhas contra os muçulmanos. Ele mesmo teria atirado pela amurada aquela mistura pastosa que se incendiava na água e, serpenteando, levava o incandescente terror às embarcações do Islão. Ficava assim conhecido o Fogo Grego, uma arma de guerra que nunca veria o seu segredo revelado.

Hoje como ontem, a Grécia é falada pelo fogo assassino. Ainda há três semanas, a água defendia-me dos 39 graus de Atenas e não se cansava de mim na recatada ilha de Sifnos.

Hoje, a que resta é para defender a vida. Porque os gregos já não dominam o fogo.

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Sexta-feira, Maio 11, 2007

Futuro de ponta

"Não há muito a dizer sobre viagens de avião. Qualquer coisa notável tem de ser desastrosa, por isso um bom voo é definido em negativas: não fomos desviados, não nos despenhámos, não vomitámos, não nos atrasámos, não ficámos enojados com a comida."

Paul Theroux

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Terça-feira, Maio 08, 2007

O 20


Há 347 dias que esta folha está em letargia.

Mexe-se hoje em celebração: fez agora 20 países que tenho andado por aí.

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Sexta-feira, Maio 26, 2006

Kkkkkrruk-uuu-u-u (Moremi, 2003.04.27)

Tivesse eu que nomear uma coisa - uma só - que me recordasse com prazer dos dias no mato e ela seria o mais improvável dos meus prognósticos iniciais.

Elas também cantam por cá, mas é lá que a voz rouca das rolas mais enche as tardes. Cada uma com o seu canto, todas elas a maior das saudades de África.

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Seguindo Thesiger

Nestes dias em que o petróleo dita os modos de viajar e os destinos são um grande pacote litoral, traz conforto visitar os tempos dos Indomáveis.

O último dos grandes exploradores britânicos, Sir Wilfred Thesiger (1910-2003) nunca abandonou o desdém pelas modernas perversi- dades, sempre trilhando num pedregoso calcorrear de caminhos de fome e cansaço, frio e morte.

Ontem, terminei na página 350 uma jornada de seis anos em que ele partilhou com os beduínos os areais do Sul da Arábia. Ocorreu-me que já ninguém viaja assim e que os próprios beduínos já vencem as dificuldades do deserto em jipes com ar condicionado. Hoje, procuram-se resorts com tudo incluído e acesso protegido, não vão os nativos decidir entrar com olhares desafiantes e túnicas transpiradas. Hoje só resta a exausta sombra do explorador, dobrado que foi a um mundo que não pediu.

Mas porque, neste canto, nunca dos anseios se desistirá como vãos, passo a transcrever com respeitosa vénia:

“De manhã observei Mabkhaut a soltar os camelos para o pasto e, à medida que estes se libertavam, momentaneamente poupados do duro trabalho a que os submetíamos, apercebi-me de que só conseguia pensar neles como comida. Alegrei-me quando desapareceram de vista. Al Auf aproximou-se e deitou-se a meu lado, cobrindo-se com a sua capa. Penso que não falámos. Eu estava deitado com os olhos fechados, insistindo para comigo: «Se estivesse em Londres, daria tudo para estar aqui». (…) Preferia estar aqui, faminto como estava, do que sentar-me numa cadeira, empanturrado de comida, a ouvir rádio. (…) Mantive-me desesperadamente fiel a esta convicção. Parecia-me infinitamente importante. Pô-la minimamente em causa seria admitir a derrota, renegar tudo aquilo em que acreditava.”

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Quarta-feira, Maio 24, 2006

Por Xakanaxa (Moremi, 2003.04.27)

Era hora de sesta no acampamento de Xakanaxa. Como de costume, só eu me mantinha acordado. Sempre achara um desperdício entregar duas horas ao sono, quando a selva fervilhava em meu redor. Ainda que o guia tivesse dado instruções para não abandonarmos a clareira e até a insuspeita Lonely Planet confirmar o perigo: “Watch out for wildlife in Xakanaxa: one reader was chased by elephants in 1999 and an American boy was tragically killed by hyenas here in 2000”.

Assim, subi para a cabina do camião e deixei-me lá a ler um livro sobre os répteis do Okavango. Pus os pés no tablier e, enquanto a sombra enchia Xakanaxa, vi-me como o único convidado das melodias dos pássaros. Aliás, só sairia dali para visitar Douglas, o nosso WC.

Habitualmente, o Douglas ficava a uns cinquenta metros do acampamento, escondido atrás de uma árvore. Em Xakanaxa, estava um pouco mais longe, forçando-nos a uma caminhada por um bosque de acácias novas. Apenas alguns passos me separavam da árvore quando senti um movimento. Olhei para o meu lado direito e vi-o a fitar-me. Era um leopardo.

Ocorreu-me que devia parar. Então, fiquei a contem- plá-lo. Apenas. A menos de dez metros de mim, ele permanecia estático. Até que decidiu agir. E, curvando sobre si mesmo, fez meia-volta para o bosque. Não tinham passado mais que cinco segundos.

Mudo e estático, ali fiquei por mais um minuto, tentando perceber o que fazer a seguir. Passou-me pela cabeça que os leopardos costumam subir às árvores. Olhei para cima. Por outro lado, ele podia estar a rodear-me. Olhei para baixo e pus-me a tentar ouvir se abria caminho junto às folhagens dos arbustos. Então, sem nada ver nem ouvir, comecei vagarosamente a andar de lado, até chegar ao acampamento ainda adormecido. Entrei de novo no camião e voltei a pegar no livro. A cada parágrafo, olhava pelo retrovisor para o canto da clareira. Mas, estranhamente, nunca foi medo o que senti. Tudo tinha sido demasiadamente rápido e paralisante para poder sentir qualquer coisa.

Sentir o medo terrível, o pânico descontrolado, tinha sido na noite anterior. Era a primeira noite no famigerado Xakanaxa e a fogueira ia perdendo fulgor. Já pouco se falava e os olhares fixavam-se hipnoticamente nas chamas, antecipando a entrada nas tendas. Então, vindo da escuridão, tão alto como um comboio a aliviar vapor, aquele ruído cruzou os ares. Não era um grito nem um rugido, era mais como um gigante a fungar junto às nossas cabeças. Os gritos vieram depois: eram as raparigas do grupo, transidas de medo. Eu não gritei. Saltei da cadeira de lona, quis fugir para longe e acabei no abraço apavorado da Fátima e da brasileira Sybille. Já o medo foi o mais fisicamente intenso que alguma vez sentira. Mesmo não passando de um dos menos interessantes capítulos da história de Xakanaxa.

Gys, o guia, dormia todas as noites em cima do atrelado do Mercedes. Pela manhã, interpelei-o enquanto ele fazia o pequeno-almoço. “Yes, I heard”, respondeu ao dobrar-se para apanhar uma lata de cacau instantâneo, “it was an impala. They do those noises when they are afraid of something”. Fiz um sorriso amarelo e desviei-me. Afinal, o terror de Xakanaxa não era senão o mais assustadiço dos mamíferos da selva.

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Terça-feira, Maio 23, 2006

Em morte lenta (Moremi, 2003.04.26)

Reforçados de mantimentos e expectativas, entrámos em Moremi. Chegavam os grandes parques e as caminhadas pelo mato ficavam carimbadas como proibidas. Agora, só mesmo empoleirados no camião Mercedes. Era tempo de game drive.

Pelos trilhos de terra batida, íamos cruzando vagarosamente as vidas das impalas, zebras e girafas que apenas tínhamos espreitado fugazmente nos game walks. Mesmo devagar, um quarto de hora bastava-nos para termos mais encontros que em três horas a pé pela savana. Imersos naquela babel, a confissão de Gys deixou-nos por isso intrigados: “I never saw a killing”.

Uma hora no sofá com as corridas e os rugidos do National Geographic eram o suficiente para uma única chita abater quatro impalas. No entanto, em quase vinte anos de Krugers, Serengetis e Okavangos, o nosso guia nunca assistira à corrida, ao salto e ao epílogo de uma perseguição bem sucedida. Era na selva que ele fazia a vida, mas a morte só a vira passar na TV. Talvez fossem as manias do destino.

Então, ele apontou para o longe: “Some- thing is happe- ning there”. No chão, uma enorme mancha preta balouçava sem que percebêssemos porquê. Era como se um estranho vento estivesse a impor a sua força sobre um corpo inerte. Uma dezena de metros à frente, já Gys descodificava a cena: “Four lions. They killed a buffalo”.

No meio da erva seca, o tom alperce das suas peles era a camuflagem perfeita. Dois dos leões vigiavam os oportunistas que se tinham juntado (algumas hienas e uma multidão de abutres) e outros dois alimentavam-se das entranhas do búfalo, manipulando a carcaça de meia tonelada sem esforço aparente. Debruçados no Mercedes, perdemo-nos no tempo. O sol começava a descer no horizonte e, mais uma vez, Gys tinha chegado no meio de uma refeição.

Regressá- mos pela manhã para encontrar quase tudo na mesma. Só mesmo o búfalo estava a caminho de ser uma massa disforme, onde apenas as ossadas mantinham a forma do que ele já tinha sido. Um leão espreguiçava-se rolando sobre o dorso, outro bocejava sonoramente. Os outros dois não tinham perdido o apetite, para teste da paciência dos abutres. Dessa vez, ficámos menos tempo. Mas voltaríamos ao fim da tarde, para deparar com a mais extraordinária cena de toda a viagem.

Nessa altura, os quatro leões mantin- ham-se por ali, rasgando os últimos músculos da sua presa. Os abutres tinham duplicado em número e já partilhavam os ramos de uma árvore morta com alguns marabus. Estranhamente, não se viam hienas, mas entretanto tinham aparecido dois crocodilos. Sentia-se no ar que a refeição dos leões não demoraria muito mais. Em breve, os necrófagos sentar-se-iam à mesa.

O Mercedes estava resguardado num bosque, parado à saída de uma curva da estrada de areia. E com o interesse a esbater-se, preparámo-nos para partir. Até que nos apercebemos de um súbito restolhar: eram os crocodilos a voltarem à água. E, junto a eles, um viajante solitário desmontava do capot do seu Defender e, atirando-se para trás do volante, gesticulou na nossa direcção apontando depois para o outro lado da curva. Nada conseguíamos ver, pois o arvoredo tapava a saída da curva. Mas, obviamente, algo se estava a passar.

Foi então que fomos autentica- mente colhidos por uma temível locomotiva de múscu- los e convicção. A cinco metros de nós, numa passada marcial, eles iam surgindo. Um… dois… três… quatro… sete… onze leões seguiam o trilho de areia que fazia as vezes de estrada e dirigiam-se para a peça de carne. Não tenho memória de mais colossal demonstração de força. Gys, que por ali já devia ter visto quase de tudo, esbugalhava os olhos: “The other lions are escaping. Never saw it. Never in my life…”. Enquanto os abutres esvoaçavam para todos os lados, os novos proprietários da carcaça mediam forças, rugindo e ameaçando-se entre si. O que restava do búfalo era escasso para tanta vontade. Rapidamente o submergiram, rasgando com os dentes os magros despojos de um dia de banquete.

Ao longe, os quatro leões fugitivos assistiam impassíveis. Junto a nós, Gys estava em estado de êxtase. Não fora para hoje a morte ao vivo. Mas o espectáculo da morte pode ser uma longa transmissão em diferido.

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Sexta-feira, Maio 19, 2006

Geografia Vitoriana

Eram 4 da tarde de um Domin- go de 1965. Uns poucos tinham ido de carro e a maior parte na excur- são, mas estavam quase todos para Tomar. E quando o Vitória jogava fora, o bairro ficava entregue aos velhos e a algumas mulheres. Há que dizer que, depois dos jogos com o Tramagal e com o Torres Novas, já não havia hipótese de subir à Segunda do Nacional. Mas, mesmo assim, acompanhava-se o Clube. Aproveitava-se e conhecia-se a terra.

Treze anos depois, o entusiasmo estava ao rubro. A equipa subira à Terceira na época anterior, e, fosse qual fosse o campo, de Bucelas a Campo Maior, de Borba a Benavente, não faltava o grito: “Vamos embora, Vitória”. Fica para a história das desilusões que, nas últimas jornadas, o Elvas passou à frente e adiou o sonho da Segunda Divisão para outros anos. Mas, que remédio, ao menos ia-se passeando, comendo e rindo.

Na época seguinte, com 9 anos, já eu respondia de ponta de língua quando me perguntavam se era Benfica ou Sporting: “Sou do Vitória”. Lembro-me de ter visto um ou dois jogos, mas não sei com quem. Aliás, só muito mais tarde é que soube que tínhamos ficado outra vez em terceiro no campeonato. E que o Oriental e o Estrela da Amadora é que tinham subido à Segunda.

Aí, pese toda a esperança de um bairro de fibra (“Para o ano é que é”) e sem que ninguém o adivinhasse na altura, começou o lento declínio. Das camisolas vermelhas mais aguerridas de toda a Lisboa e da geração que tinha ido a Tomar em 65. E nunca mais o Vitória esteve perto de subir à Segunda.

Os campos passaram a ser mais pequenos, os balneários mais acanhados e no Distrital deixaram de fazer sentido as excursões. Mas foi então que, deserdado dos tempos áureos, comecei a seguir o VCL. E a alinhavar toda uma geografia que se materializava em campos de futebol. Domingo sim, domingo não, primeiro à boleia e mais tarde no meu Corolla de 72, também eu me juntei ao grito.

Na Charneca (que parecia uma praça de touros), no Operário (quase um derby), em Camarate (ao lado de um cemitério), nos Olivais (outro cemitério), na Musgueira (onde levei umas estaladas), no Damaiense (onde éramos sempre roubados), no Palmense (onde sempre perdi), no Porto Salvo (um metro da linha lateral à linha de grande área), no Domingos Sávio (onde as duas linhas quase coincidiam), em Agualva (os melhores couratos), em Santa Iria (porrada e invasão de campo), no Unidos do Bairro Padre Cruz (invasão de campo e porrada, acho), etcetera, etcetera… Enfim, poderia tranquilamente e de memória juntar-lhes mais vinte pelados. Ou trinta.

Hoje, os meus Domingos têm outros rumos. Fico menos vezes rouco e já não entro em casa de botas enlameadas. E, a esbracejar na I Divisão B do Distrital de Lisboa, o Vitória até está numa espécie de Segunda dos Mais Pequenos.

Mas, e porque há afectos que nos acompanham até ao fim, sou orgulhosa e incondicionalmente do Vitória. Há quem lhe chame, porque sempre assim lhe chamaram, Vitória da Picheleira.

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Quinta-feira, Maio 18, 2006

O evitável cozinheiro (Maun, 2003.04.25)

Nunca saberei se por graça da providência, Ralph nunca cozinhou para nós.

Ele até era cozinheiro de profissão, tinha uns bem fornecidos cem quilos e um ar bonacheirão quando se ria com as suas próprias piadas. Ou seja, reunia os requisitos. Mas o facto de cozinhar para a tripulação maioritariamente filipina de um navio mercante não me inundava de confiança.

Ele estava ali como eu, em viagem. Por isso, até nem seria suposto que cozinhasse. Contudo, desde os primeiros dias que me arrepiava a ideia de poder vir a comer as suas receitas. É que, não encontro outra forma de o dizer, os intestinos do Ralph gaseavam-nos a cada dez minutos numa expulsão borbulhante. Quando andávamos pelo mato, era sempre mais provável que o cheiro fétido tivesse origem humana que animal. O que, atendendo às espécies vizinhas, não deixava de ser uma proeza.


Dias mais tarde, mergulhei numa lagoa e descobri um mexilhão. Com uma interjeição gutural só possível num alemão da Baviera, Ralph revirou as órbitas e propôs entusiasticamente cozinhá-los em molho inglês com tâmaras espremidas. Enojados, os nativos teimavam que mexilhões não eram comida; eu antecipava o vómito ao ver a mistela. Pelo sim pelo não, defen- di-me: “I dived and dived again. That is the only mussel on the lake”.

Numa manhã em Maun, fomos acordados por terríveis imprecações. Ralph, que tinha dormido ao relento, olhava para cima e, agitando o braço direito como um cutelo, invocava um raio que incinerasse todos os pássaros: “Dam birds from hell”. Quando chegámos junto a ele, o saco-cama azul estava semi-coberto de uma poça que, à primeira vista, era vómito. Percebi depois que era caca. Esbranquiçada e a meio caminho para se solidificar. E, descendo do sobrolho esquerdo até ao lábio superior, uma repugnante estalactite de fezes adornava-lhe o rosto vermelho de cólera. Em cima, empoleirado num ramo, um rolieiro-de-peito-lilás parecia trinar divertido ante os gritos da ocasional sanita.

Nesse mesmo dia, um exército de macacos entrou-nos no camião e nas mochilas, levando apenas as maçãs do Ralph: “Dam monkeys from hell”. Decididamente, o delta voltava-se contra o cozinheiro alemão, que, atirando torrões de terra, gritava: “I will roast you with your apples”. Ficou-se no entanto pela ameaça. Aliás, já o tinha dito, nunca cozinhou para nós.

Entre o gasoduto intoxicante e o experimentalista pantagruélico, Ralph não deixava de ser um homem de bom coração. É certo que parecia abusar dos molhos (tanto na flatulência como no fogão), mas era um tipo jovial. Há três semanas recebi um retrato do casamento. Ao seu lado para a vida, estava uma filipina lá do barco. Na boca, um sorriso que eu reconhecia. Estaria a cagar-se?

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Quarta-feira, Maio 17, 2006

Sete (Okavango, 2003.04.25)

No Norte da Escócia, um velho pescador rematara respeitosamente o nome de Eusébio quando falei do meu país; Rui Costa, il principino, era repetido com lágrimas nos olhos quando em Florença descobriam a minha nacionalidade; e, até num souk de Aswan, o futebol escancarara um sorriso desdentado: “Manuel José da Silva, manager of Al Ahly, the Great”.

Mas já um rotundo “Luís Figo!”, o nosso número sete, era disparo certeiro por todo o globo. Como se fosse um apelido do nome próprio Portugal. Na realidade, de tão frequente, a contra-resposta tornava-se esperada.

A surpresa viria de uma remota aldeia de palhotas perdida nos fundos do Botswana. Era uma terra sem electricidade ou água potável, talvez até sem nome. Mas tinha por lá o Sete.

Talvez até nem sentissem a falta da luz. É que havia um Sete a brilhar e um outro Sete sempre disposto a ajudar.

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Terça-feira, Maio 16, 2006

Chegaram os Leões (Okavango, 2003.04.24)

Na noite anterior, as hienas tinham andado pelo bosque que circundava o nosso acampamento. Primeiro, os ruídos pareciam da lenha a estalar na fogueira, mas subitamente o Gys apontou a lanterna para trás. E, nas sombras, todos vimos aqueles vultos corcundas a escaparem-se para o meio das árvores. Foi então que alguém perguntou: “Are they dangerous?”

“It depends”, disse o guia, alimentando a fogueira de mais lenha. Durante o dia, eram animais solitários, inofensivos e mesmo cobardes. Mas, quando ficava escuro, juntavam-se para caçar. E, nessa altura, eram evitadas por todos os animais da selva. Até pelos leões.

Olhei de novo para o bosque à minha frente. Nada se via mexer naquela indistinguível massa negra, mas o medo adivinhava-lhes a presença. Então, o Gys continuou. Uma das mais sangrentas histórias do delta com homens envolvidos tivera as hienas como protagonistas. Uma matilha entrara a meio da noite num acampamento e fora descoberta por uma criança de 9 anos. Em pânico, a criança saiu da sua tenda e tentara alcançar a tenda dos seus pais. Mas, com isso, desrespeitou a condição número 1 de uma pessoa na selva: “Never run. If you run, they think you are a prey. If you run, you are food.” Não conseguiu dar mais que alguns passos. Foi abatida por uma matilha de hienas esfomeadas. Só na manhã seguinte é que foi encontrada pela família em desespero. Mas pouco mais restava que as suas ossadas.

De um momento para o outro, sentia-se que a fogueira não aquecia o suficiente. Sentado num enorme tronco de árvore que tinha tombado, eu só esperava que aquele formigueiro na barriga não fosse o fermentar de uma cólica. Ou que qualquer outra necessidade não me obrigasse a fazer 30 metros no breu da noite até ao semi-escondido Douglas, apenas na incipiente companhia de uma lanterna.

Felizmente, nada aconteceu. Aliás, enquanto caminhávamos no primeiro game walk do dia, o sinistro relato da noite anterior não era mais que uma memória esbatida. A manhã estava muito quente e o nosso andamento era esforçado. De tão opressivo, o calor até escondia os animais. Desde que saíramos do acampamento, tínhamos já deixado para trás duas horas de marcha solitária, onde pouco mais ouvíamos que a nossa própria respiração. Ofegante, quase sufocada.

Então, o nosso guia quebrou o silêncio e apontou para longe para a copa de uma árvore. “It’s a killing”, virou-se ele para nós, indicando-nos os ramos cobertos de abutres. Virámos o rumo e seguimos naquela direcção. Estávamos exaustos, mas a expectativa fazia-nos andar mais rápido. E, durante um quarto de hora, aproximámo-nos cada vez mais da árvore. Mas, quando lá chegámos, não havia sinal de vida. Os abutres já não estavam por ali e, estranhamente, nenhum outro animal mitigava a sede na pequena lagoa que existia junto ao arvoredo. Até que a justificação saiu da boca do Gys, enquanto olhava para o chão: “Lions.” Naquele momento, senti o nosso guia invadido de um entusiasmo que ainda não se tinha revelado. E, num tom quase juvenil, acrescentou: “Let’s follow them.”

À frente ia o Gys e o nosso pisteiro, nativo do delta; pelo meio, quatro urbanos em passo titubeante; atrás, com o coração a cavalgar, eu fechava o grupo. Tentando manter a frieza, ia olhando à vez para o lado e para trás, não fossem decidir-se aparecer nas minhas costas. Mas foi junto à cabeça do grupo que se ouviu. Era um rugido terrível. E tal e qual o Gys dissera uns dias antes, sentimo-lo troar no nosso peito antes de chegar aos nossos ouvidos.

Num ápice, o grupo desmembrou-se. Uns agarravam-se aos outros, alguém gritou de terror e houve até quem corresse dois ou três passos até se lembrar da lição (“Never run”). À cabeça do pelotão, o pisteiro, africano e reincidente, mantinha-se estático. O nosso guia virou-se para nós e levantou as palmas das mãos, aconselhando calma. Eu tinha ficado parado ao soar do rugido. Gelara. Então, o Gys advertiu: “Remember, they might want to scare you. So, if they run in your direction, stay still.” Entreolhámo-nos. “Even if they are only two metres from you, stay still.” E concluiu: “Stay still and you stay alive.” Aos poucos, chegámo-nos adiante. E vimos os leões, à sombra de uma acácia.

Deviam ser dez ou doze. Não vi nenhuma juba, mas a maior parte eram adultos. Leoas ou jovens leões. E também algumas crias. Estavam a vinte metros de nós, refastelados e defendendo-se do sol. Um deles bocejou. Uma cria, do tamanho do meu tronco, decidiu exibir-se e rugiu na nossa direcção. Então, tão subitamente como ouvíramos o primeiro dos rugidos, internaram-se no bosque. Deixámos de os ver. Mas não de os sentir.

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Sexta-feira, Maio 12, 2006

Para lá dos Urais

Tenho saudade. De gente, tempos, sítios, situações, de tudo. Aliás, para mim não há regra para a saudade. Basta que algo relembrável fique para trás para que um par de anos o transforme em saudade. Na realidade, a saudade é a minha forma de cristalizar o passado que faz sentido.

Uma pequena saudade que eu tenho é do tempo passado nos alfarrabistas do Chiado. Lembro-me particularmente das dedicatórias nas guardas (“do padrinho Júlio Alçada pelo teu 9º aniversário”). Dos títulos em itálico ou a imitar caligrafia. E do ar mofado nas prateleiras de topo.

Mas, sobretudo, recordo a emoção daquelas aventuras encadernadas a percalina. Júlio Verne escrevia-as e a Corazzi editava-as, chamando à colecção “Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos”.

Livro a livro, aos trezentos escudos de cada vez, compunha-se quase todo o legado de Verne. Viagem a viagem, cheguei a 74 volumes impressos no fim do Século XIX e trazidos na ortografia da época: “No decurso do anno de 186… commoveu singularmente o mundo inteiro uma tentativa scientifica sem precedentes nos annaes da sciencia. Os socios do Gun-Club, associação de artilheiros fundada em Baltimore depois da guerra da América, tiveram o pensamento de estabelecer communicação com a Lua, - sim, com a Lua, - atirando-lhe uma bala.”

Conheci “Clovis Dardentor”, fiz “Dois Annos de Ferias”, passei “Cinco Semanas em Balão” e cruzei-me com “Os Piratas do Archipelago”. De passagem, soube que “O Bilhete de Loteria nº 9:672” não estava nas mãos de “Kéraban, o Cabeçudo” e que este também não tinha “Os Quinhentos Milhões da Begun” (nem ele nem “Miguel Strogoff”).

Não cheguei a ler todos os 74. Sei também que dificilmente os lerei. Além de me saber bem esta saudade, não quero arriscar comprometer o sabor que lhes tenho. É que, sei-o bem, Júlio Verne poderá ter sido o mentor desta minha irrequietude.

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Quinta-feira, Maio 11, 2006

Ke itumetse* (Okavango, 2003.04.24)


Vejo sempre África com olhos de gostar. Pode ser terra de sangue e fogo, mas sempre me desassossega quando sonho em revê-la. Basta despertar às 5 da manhã, sentir o ar frio no nariz e ver a noite a dar lugar ao sol. Apenas isso…

* “Obrigado“ na língua Setsuana.

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Quarta-feira, Maio 10, 2006

Entre a morte e a vida (Okavango, 2003.04.23)

- Queres ouvir?, perguntei.
- Sim, virou-se na cama.
- É sobre a viagem. Estás com muito sono?, insisti.
- Não, continuou monossilabicamente.
- Olha o que eles dizem: “A montagem dos acampamentos, assim como a carga e descarga dos veículos será realizada pelos membros do grupo”. Ouviste?
- Sim, arrastou a resposta.
- Tem mais: “Existem riscos e perigos que não estão incluídos numa viagem tradicional: esforço físico para o qual poderá não estar preparado; falta de apoio médico convencional devido a estar em regiões remotas; dificuldade de evacuação em caso de acidente”, disse, olhando de soslaio para lhe perceber a reacção. Ainda queres ir?
- Sim. Ainda quero ir, soprou meia a dormir. Mas tu dormes ou não?
- Ah, e olha aqui mais abaixo: “não espere encontrar o conforto e as condições de higiene a que está habituado; a alimentação está muitas vezes enquadrada com os hábitos e costumes locais, sendo impossível comer outra coisa…
- Zé, interrompeu, por favor, temos os dois que acordar cedo. Já percebi que vamos trabalhar, comer mal e lavar-nos de vez em quando. Mas amanhã falamos disso, ‘tá bem? Agora, por favor, acentuando estas palavras, apaga a luz.

Deitei-me. A Fátima não parecia muito preocupada com o desfile de dificuldades. Melhor ainda. Aconcheguei a almofada e pus-nos a pensar na savana africana. Tinha passado um par de minutos quando, do meio do quarto escuro, ela atirou a última pergunta da noite: Há por lá cobras?

Tentando mostrar convicção, respondi logo de seguida: Sobre cobras, nunca li nada. Felizmente, as luzes já estavam apagadas.

Um mês e 17 dias depois, fomos desper- tados às 5 da manhã. Tinha sido a primeira noite numa tenda em plena selva. Não fora fácil adormecer, pois os elefantes faziam-se ouvir do outro lado do rio. E lembro-me de duas vezes em que, no escuro, me ajoelhara no saco-cama para ver se as hienas andavam junto à fogueira. Eu próprio guardara os restos do jantar no atrelado do camião para evitar que elas rondassem a clareira. Mas era tão grande a excitação que o sono não conseguia impor-se de vez. Quando finalmente adormeci, uma voz chamou-me para o dia que começava a nascer. Íamos fazer o nosso primeiro game walk.

Um game walk é uma caminhada pelo mato sem rumo aparente e com o único objectivo de ver animais selvagens. Duas vezes por dia era hora de game walk: quando nascia o sol e quando ele se punha. Eram os momentos em que a maior parte dos animais saía para comer.

Na primeira manhã, andámos meia-hora sem dar com um sinal de vida. Até que, ao curvarmos um bosque de arbustos, vimos a morte à nossa frente. Era a carcaça de um elefante. “An old bull”, disse o nosso guia, após conferir com o pisteiro. “It died a week ago”.

O Gys, de nome Gysbert e pronúncia Raïss, tinha apenas 23 anos. No entanto, chegara à selva aos cinco. Sabia por isso a sua linguagem. Vira numa pilha de ossos a idade do elefante (pois as presas já estavam gastas), apercebera-se do seu sexo (pela envergadura das ossadas) e sabia-lhe a data da morte (pela decomposição da pele ali ao lado). Há seis anos que levava expedições de ignorância por entre os perigos da savana. E, há talvez seis anos, respondia “Ach, it is a safari myth…” quando perguntavam por cemitérios de elefantes. Mas, sobretudo, ensinava o respeito e a consciência como lições de sobrevivência na selva.

Nós seguíamos-lhe cada pegada como se disso dependesse a nossa vida. Por isso, estacámos bruscamente quando o vimos parar, dobrar-se ligeiramente e abrir o braço direito. Algo andava por ali. Entre o receio e a curiosidade, lembro-me de procurar com os olhos de um lado para o outro. Então, a resposta apareceu, camuflada no capim a 3 ou 4 metros de nós. Era uma pitão.

Três metros de pele luzidia e potência muscular. Enfim, o abraço mortal que todos temiam. Por cima do meu ombro, a Fátima arregalava os olhos. Afinal, ali havia cobras. Nunca me tinha parecido importante dizer-lhe que o Delta do Okavango tinha mais de 70 espécies de serpentes. E, sobretudo, que algumas delas se contavam entre as mais venenosas do mundo. Mas, logo ao primeiro game walk, ali estavam elas.

“Just give her room to go”, ouviu-se, enquanto nós contemplávamos em quase hipnose os seus profundos olhos negros e a língua bifendida que entrava e saía da boca. Progressivamente, a admiração pelo esplêndido animal ia substituindo o medo. Até que ela decidiu regressar ao seu tufo de erva seca. E, com o movimento de um chicote, ondulou vigorosamente das nossas vidas para fora.

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Terça-feira, Maio 09, 2006

Mordido (Rio Okavango, 2003.04.22)

Logo na primeira noite em África, vi um Rabo de Crocodilo. Custava 59 rands sul-africanos e estava na folha plastificada de um menu, acompanhado de arroz, alface, cebolas e fruta-da-pimenta. “No. It is not good”, tinha aconselhado o empregado.

À quarta noite, o repetido uivar de um chacal amedrontara o nosso sono ao relento em Makgadikgadi. E ao quinto dia, ainda consegui espreitar os estorninhos-de-Burchell e os rolieiros-de-peito-lilás (não há erro no nome) entre os ramos das árvores junto ao Boteti. Mas os animais de documentário, esses ainda não andavam por ali.

Até que, ao sexto dia, abastecemos de víveres frescos e entrámos no Delta do Okavango. Chegara finalmente o território dos grandes e, com ele, a temporada dos banhos bissemanais. Estávamos no Mato.

O Okavango nasce em Angola e capricha em nunca se encontrar com o mar. Aproveita antes a época das cheias para se espreguiçar numa área de 16.000 quilómetros quadrados. Só que, por enquanto, era ainda tempo para os pântanos e os canais serem sulcados pelo mokoro, uma embarcação baixa e de um só corpo talhada de um tronco de árvore.

À nossa espera estavam três mokoros e três indígenas com varas. África também tem gôndolas, mas aqui ninguém canta pelo caminho. Ao contrário, o nosso poler nunca abriu o rosto e só falou quando lhe perguntei sobre a cicatriz desenhada no ombro. “HIV/AIDS”, atirou com secura.

Não fiquei admirado. Afinal, o Botswana tinha mais de um terço da população infectada. Fiquei só a pensar na dura justiça de um povo que estigmatiza com uma lâmina aqueles que carregam a peste. Logo nessa noite, também as minhas convicções seriam postas à prova. Ele não era só poler ou pisteiro. Era também o nosso cozinheiro. Nesses momentos, todo o grupo já sabia porque é que aquele rosto nunca sorria. Mas ele já tinha sido suficientemente marcado. Por isso, nunca ninguém se desviou de um prato. Ou poupou um sorriso.

Entretanto, com o Okavango a baixar até ao palmo de altura, tivemos que seguir a vau. Com 5 ou 6 metros a separar as margens, pensámos em crocodilos e hipopótamos. Mas eram os babuínos quem andavam por ali. Eram dezenas e levantavam os traseiros escarlates evitando a terra que ainda fumegava de incêndio recente. Então a água voltou a subir e voltámos aos mokoros.

Mas, agora, eram as margens que vinham ao meu encontro. As folhas de papiro começavam a tocar-me nos braços, deixando cair ocasionalmente uma ou outra formiga que ali tinha feito corredor. Quando se segue no barco da frente, têm-se habitualmente o melhor ângulo de visão. Mas, neste momento, o meu tronco já ajudava a proa do mokoro a abrir caminho entre a folhagem cada vez mais junta.

Por fim, já mal se conseguia distinguir a distância entre as margens. Tive que juntar a cabeça aos joelhos para que o papiro não me cortasse o rosto. Mas eu era agora o apeadeiro ocasional para todo o tipo de insectos rastejantes. Aranhiços, pequenas centopeias e formigas vermelhas subiam-me pelos braços e passavam-me para dentro da t-shirt. Atrás de mim, a Fátima (também ela a ser açoitada pelas folhas) afastava os aranhiços que me desciam para dentro dos calções, enquanto eu esbracejava, tentando matar tudo o que me ia mordendo. No fundo do mokoro, iam caíndo formigas decepadas. As suas cabeças, mesmo sem o resto do corpo, continuavam presas à pele dos meus braços, como se fossem buscar uma última energia na morte. Eram só cabeça, mas eu ainda sentia as suas mandíbulas como se fossem alfinetes.

Após alguns minutos a ser mordido, o rio abriu numa pequena lagoa. Num impulso, atirei-me à água e esfreguei o formigueiro do meu corpo. Só viria a pensar que há crocodilos no Okavango uma hora depois, quando um balde pendurado no ramo de uma árvore se entornou sobre mim e levou os últimos cadáveres daquele famigerado exército vermelho.

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Sábado, Maio 06, 2006

Da Estação de Chelas ao Túnel da Bruxa

Aos 9 anos fui pela primeira vez ao Túnel da Bruxa. Eu mais o Malheiro, que tinha um tique em que piscava os olhos e acolchoava duas vezes seguidas a base da genitália. Dizia-se na altura que o túnel era lugar de segredos e que vivia lá um drogado. Naquele dia não chegámos a entrar, mas trouxe comigo umas mãos-cheias de caricas estrangeiras que estavam ali atiradas para o pé da linha. Nem sequer vimos nenhum comboio a sair ou entrar, mas ao chegar à Praceta dissemos que lá tínhamos ido. Questões de virilidade, entenda-se.

Um par de anos mais tarde, acabei por lá voltar. Agora, o troço de linha entre a Estação de Chelas e o Túnel da Bruxa já era feudo para quatro putos que teimavam em querer tropeçar numa aventura. O Bibita tinha mais um ano que o resto de nós e já tinha um penteado à futurista, atributos mais que suficientes para autenticar um líder nos recém-chegados Anos 80; o Jaime e eu andávamos juntos na preparatória (ainda andamos, não é, irmão?); e o Brux, mais adiposo e menos afoito, mas com um humor que antecipava a época.

Naquelas tardes de Verão, já não se viam caricas junto ao Túnel da Bruxa. Mas chegámos a ver o Drogado. Só que o medo tinha já sido trocado por um borbulhar na barriga. E, então, atravessámos o túnel. Para quem ia a pé, era muito grande. E, era verdade, tinha segredos.

Tínhamos que andar pelo lado esquerdo da linha, onde havia uma distância maior até à parede do que o lado direito (dizia-se que quem caminhasse pelo lado errado, era apanhado pelo comboio). E havia uma guarita escavada na parede de tijolo carbonizado, que mais parecia um cinzeiro gigante (era onde o Drogado esperava). Mas, por fim, atravessámo-lo. Até com o comboio a passar. Só que, com os segredos descobertos, o Túnel da Bruxa já não era muito mais do que o Túnel de Xabregas.

Então, sem largarmos o nosso troço de linha, passámos ao desafio seguinte: encafuávamo-nos nas estruturas metálicas das pontes e sentíamos a voragem dos comboios que passavam a centímetros sobre as nossas cabeças. Aventura.

Para nós, os comboios cruzavam-nos a vida de um modo que recordo com paixão. Aliás, ainda hoje, adoro o cheiro forte do óleo esquecido por uma automotora nas tábuas da linha. Reminiscências da viagem.


Fotografia da autoria de Joe Paduano

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Sexta-feira, Maio 05, 2006

Souflé de hiena (Maun, 2003.04.21)

Tenho estudos.

Falo e percebo línguas.

E leio com regularidade.

Bem visto, acho-me um tipo estruturado. Mas aqueles 3 segundos junto ao Rio Boteti demonstraram que há sempre caminho para um pensamento de alarve e extraordinária estupidez.

Naquele momento, enquanto os cavalos trotavam e as vacas pastavam no leito seco do rio, o ocasional imbecil brilhou intensamente e apenas pôs em causa toda a dieta alimentar de um continente: “Olha, também há bichos destes em África?!”

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Quinta-feira, Maio 04, 2006

Douglas & Digmore (Makgadikgadi, 2003.04.20)

A primeira vez que ouvi falar do Douglas foi num jantar em Nata. As vozes surgiam em fundo, mas lembro-me distintamente do respeito com que se falava daquele nome. "Douglas really save the day", cheguei a aperceber-me.

Mas só à segunda é que fiquei realmente intrigado. "I was looking for Douglas in the middle of the night, but I couldn’t find it. It was sheer panic", dizia um homem de barba rala e corpulenta meia-idade.

Afinal, quem seria aquele Douglas? Um guia veterano que caçara com Hemingway? Um pisteiro capaz de sussurrar ao ouvido de um búfalo? Os meus pensamentos ondulavam, mas nunca se afastavam muito da figura de Robert Redford em “África Minha”.

Finalmente, ao fim do terceiro dia, conheci o Douglas e o seu parceiro Digmore. E tudo me pareceu mais iluminado e coerente. Realmente, o Douglas era um poço de vitalidade que atendia a todas as nossas necessidades.

Sempre que montávamos acampamento, o nosso guia afastava-se com uma pá e com um banco desmontável. Pouco depois, regressava e enterrava a pá no limite da clareira onde as tendas estavam dispostas. Pegava numa caixa de fósforos, enfiava-a no oco de um rolo de papel higiénico e colocava os dois no punho da pá. Para trás, a uns 30 ou 40 metros do acampamento, Gys tinha escavado um buraco no chão. Por cima, ficava um banco com um círculo cortado no tampo. Era para as nossas precisões. Era o nosso WC, que um dia alguém garbosamente baptizara de Douglas.

Quando visitá- vamos o Douglas, levávamos connosco a pá Digmore. Assim se sabia se alguém estava a ocupar o Douglas: bastava Digmore não estar no seu sítio. No fim do diálogo, utilizava-se o papel higiénico da forma que as sociedades civilizadas preconizaram, acendia-se um fósforo e deixava-se tudo a arder no buraco. Mais uma vez, Douglas e Digmore, qual Batman e Robin, tinham salvo o dia.

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Quarta-feira, Maio 03, 2006

Os chacais do Nada (Makgadikgadi, 2003.04.20)

"- Two years ago, this was a lake with hundreds of flamingoes", disse o guia.

Custava a crer. Aquilo era o Nada absoluto. Aquilo não podia estar vivo há meros dois anos.

Para onde quer que nos virássemos, o salar de Sowa fracassava em surpreender. Não havia um ressalto que fosse no horizonte e a alva monotonia só era interrompida aqui e ali por uns tufos de erva, amarelados de morte.

Podia ter sido um lago de flamingos, mas hoje já nada cruzava o céu. Nem uma única ave, nem um grito solitário. O ruído era um exclusivo nosso, ao chocarmos os ferros que montavam as tendas ou a arrastarmos os pés na quebradiça película de sal e feldspato.

E, contudo, tudo aquilo era magnífico.

Em Makgadikgadi, no salar de Sowa, descobre-se que o silêncio, quando nos rodeia na sua expressão mais profunda, ganha vida. E não deixa espaço para mais nada, senão a mais solene paz de espírito. Sentado no chão, enquanto o sol se punha em África, converti-me ao vazio completo. E percebi que há momentos em que o nada é o mais próximo que existe de sentir tudo.

Quando a noite caiu, surgiu a ideia: aquele era o sítio ideal para uma noite ao relento. "Just don’t let the fire go", advertiu Gys, o guia sul-africano. Para quem nada sabia daquelas terras, foi o suficiente para espalharmos os sacos-cama em redor da fogueira.

Só que o silêncio é algo que nunca existe na noite de África. E, vindo do nada, um uivo cortou a escuridão, gelando-nos de medo. "Put more wood on the fire", ouviu-se de cima do camião. Pus quase toda a lenha que por ali havia, mas pouco mais consegui que um novo uivo, mais longo e soluçado. "It’s only a jackal."

Apenas um chacal, dizia ele. Naquele momento pensei o quanto da nossa vida se pode pôr nas mãos de um desconhe- cido. Mas, também, aquilo era a vida dele, era o que ele fazia. Instintivamente, sosseguei. E o chacal uivou apenas mais uma vez. E mais distante, algures no meio do Nada.

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Sexta-feira, Abril 28, 2006

Safari – Dia 1 (Joanesburgo, 2003.04.18)

Quando ali entrei, tinha o reencontro com o Sahara na cabeça. Seriam quinze dias a atravessar a Líbia no dorso de um camelo. Seriam duas semanas de uma só rotina, em que o horizonte se repetiria no topo de cada duna. E, sobretudo, seria o cru silêncio a testar os limites de quem não era talhado para aquela vida do deserto. Seria a revelação de uma vida.

Só que naquele dia, dei de caras com o inesperado. E quando dali saí, o meu destino mexera-se no mapa. O desconhecido ainda ali estava e até o continente se mantinha, mas a linha do Equador passara para norte. Agora, era o Botswana que me esperava. E o deserto fazia-se selva.

Confesso que no dia em que aterrei em Joanesburgo, ainda me sentia ultrapassado pelo volte-face. Acho que ele se chamava Miguel, mas não tenho a certeza. Sei que me falou do Delta do Okavango com o maior entusiasmo com que se pode falar a um desconhecido. E sei que lhe bastara meia hora de discurso arrebatado para me fazer largar as areias para outros quaisquer quinze dias. Agora, já cá estávamos, a Fátima e eu, numa das mais perigosas cidades do mundo.

De Jo’Burg pouco se viu. Encontrei muros com 6 metros de altura guarnecidos com arame farpado e painéis de “Armed Response” ou “Watch Dog in Patrol”; assisti a sanguinolentos noticiários de TV; e ouvi alertas a dissuadirem-me de ir até ao centro da cidade ou aos subúrbios ou às townships.

Tudo isto me intrigou. O que é feito dos sonhos de Biko e Mandela? E onde é que ficou a lição de humanidade da Truth & Reconciliation Comission? Porque é que esta nova África do Sul confina a minha segurança a uma cerca electrificada? Acabei por adormecer a pensar neste filme a preto e branco.

Seria a última noite num colchão decente durante um par de semanas. Na madrugada seguinte, teríamos pela frente onze modorrentas horas embaladas pelo matraquear de um motor de camião.

Ao princípio da tarde, já tinha um carimbo do Botswana no passaporte. Safari.

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Quinta-feira, Abril 27, 2006

Acidentes e Bençãos

John Flinn é o editor de viagens do San Francisco Chronicle. Não o conheço e nunca tinha lido nada que ele dissesse. Mas ontem foi-me apresentado pelo Rolf Potts, que publica o meu blog de referência e é um dos maiores conta-quilómetros humanos da última década.

Num artigo recente, o Flinn escreve textualmente isto: “When things go wrong - and they probably will - remind yourself that if this doesn't kill you - and it probably won't - it will make a great story. Your friends don't want to hear how beautiful the Taj Mahal is. They want to hear about the psychotic driver who kicked you off the bus and left you stranded in a one-dog town.”

Anteontem cheguei da Provença. Foi o regresso de mais um sítio entusiasmante e belo de tirar o fôlego. Mas a memória maior está destinada a ser dos sarrabulhos que me caíram em cima e com os quais a mente mais pessimista não contaria.

Diz o Flinn que os amigos gostam de ouvir estas histórias. Pode até ser. Para já, só digo que é uma bênção esta família que eu tenho. Preferia evitar-lhes estas confusões, mas não há melhor que a Fátima e o Afonso para me fazerem reencontrar com o que é importante.

Talvez lá para Setembro os meus relatos cheguem à acidentada Provença. Por enquanto, regresso ao ano de 2003 e a uma experiência de sonho: o safari no Delta do Okavango.

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Quinta-feira, Abril 20, 2006

Amanhã vou à França

Só pus uma vez os pés em França. E, como foi numa escala para Lisboa, não conta.

Contudo, lembro-me de duas coisas: 15 minutos que se evacuaram numa sanita do Charles De Gaulle e o mais extraordinário set de bocejos de toda a minha vida. Sonoros, encadeados e muito ambientais. Mesmo à homem.

E isto é a minha história francesa. Nada mais. Aliás, nunca tive vontade de mais.

Mas amanhã vou à França. Ter um filho com 18 meses implica ir a sítios onde as sopas não têm patas a mexer. Por isso, vou alugar um carro e perder-me na Provença. Quatro dias.

Enfim, quatro dias de cozinha mediterrânica até nem parece má ideia...

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Quinta-feira, Abril 13, 2006

À saída do nevoeiro (Tanger, 2003.03.04)

A superstição e os talismãs são proibidos pelo Corão. Mas os muçulmanos do Magrebe parecem acreditar que toda a sorte nunca é demais. E assim, a cada porta, recebem-nos sob o auspício da “Mão de Fatima”.

E, depois da perseguição da véspera e do atropelamento da manhã, também nós acolhemos com agrado a companhia de uma Hamsa. Veio da Jemaa el Fna, a praça maior de Marrakesh. Podíamos ter comprado uns dentes humanos ou um unguento para as dores de intestinos (também por lá haviam). Mas de uma praça que em português se traduz para “Assembleia dos Mortos”, pensou-se que trazer um amuleto não prejudicaria. Afinal, até ao ferry de Tanger, ainda estavam por fazer 660 quilómetros.

A minha fatia particular de boa fortuna não demoraria a chegar. É que, pela primeira vez em Marrocos, comi e gostei. Não de uma tagine ou de uns couscous, mas de um gorduroso cheeseburger. Alcatifou-me o estômago e estimulou-me o ânimo. Entrei no jipe a resfolegar: “Vamo’ lá embora”.

O último barco para a Europa saía às 10 da noite, mas o alcatrão macio da auto-estrada estava à nossa espera em Casablanca. Ainda tínhamos que vencer os engarrafamentos da cidade e desviar dos camiões TIR que ultrapassam pela direita fora do traço exterior da estrada. Mas, quando a noite caiu, ela chegou: a N1.

O que nunca poderíamos esperar, nem nos nossos mais loucos pesadelos, era encontrar ali a mais difícil condução dos últimos dias. Ali, não estava um tapete de alcatrão. A Casablanca-Asilah deixara de ser uma auto-estrada e era agora uma sombra negra com 10 metros de comprimento. Ou seja, aqueles que o nevoeiro me deixava ver.

Durante uma centena e tal de quilómetros, pouco mudou. O sopro branco do Atlântico continuava a afrouxar o nosso ritmo e a acelerar os nossos nervos. E, no tablier, o relógio parecia andar mais rápido que nunca. Nos bancos de trás, rezava-se. Rezava-se mesmo. Mas não propriamente para chegarmos ao barco a tempo. Agora já era para chegarmos em segurança. Pensando bem, quando estamos num carro que agora já entrava a 120 à hora no denso nevoeiro, não deve haver lugar mais nervoso que o banco de trás.

Quando chegámos a Asilah, o ferry estava a 45 quilómetros e a 40 minutos. O nevoeiro ia já ficando para trás e, com a visibilidade, entrou o optimismo. Devia dar. Se nada mais corresse mal, ainda hoje cruzávamos o Estreito de Gibraltar. Foi então que, já com a cabina da portagem à vista, eles apareceram: era a Polícia.

Enquanto parava, pensei: “Excesso de velocidade. Apanharam-me em excesso de velocidade.” Eram jovens, o que num polícia de trânsito pode ser um excelente ou um terrível sinal. Tanto podiam ser compreensivos e despedir-nos com um ralhete como reter-nos ali enquanto passavam vagarosa e zelosamente a sagrada multa. Mas, não. Não eram um nem outro. Aliás, nem sequer eram dois escroques a querer fazer render o turno da noite.

Eram simplesmente dois sujeitos cruéis, vindos da lodacenta boca de esgoto da condição humana. Dois nojentos que optaram por nos deixar à conversa durante um quarto de hora, sem avançarem com uma acusação nem pedirem quaisquer documentos. Duas pústulas infectadas que, à vista do meu desânimo e no minuto em que a âncora devia estar a subir, deram-nos ordem de seguida. Afinal, concluíram com a candura possível em dejectos daquela espécie, “só ainda não seguiram caminho porque não quiseram.”

Na alvorada seguinte, após uma noite num qualquer hotel de estrada e algures no Km 2.740 da viagem, entrámos no maldito ferry com a disposição de uma ferrujenta máquina a vapor. A “Mão de Fatima”, essa, anda ainda lá por casa, para aí no fundo de uma gaveta.

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Terça-feira, Abril 11, 2006

O atropelamento (Marrakesh, 2003.03.04)

A Terça-Feira de Carnaval amanhecera gloriosa. O céu não dava hipótese às nuvens e o vidro do jipe até aumentava os 24 graus lá de fora. Em suma, era dia de t-shirt.

Ao volante, eu estava com uma disposição de assobio. Aliás, ninguém ali acusava o facto de ser o último dia em Marrocos. Não era bom estarmos ainda a 140 quilómetros de Marrakesh, quando já nos devíamos preparar para sair de lá. Mas, depois recuperava-se, pensei.

A rodar pela estrada do Atlas, com as suas faces enrugadas e as farripas de neves eternas à vista, era preciso mais que um atraso para trazer o mau humor para dentro do Freelander. Mal sabia eu que, algumas curvas adiante, me esperava o pior momento de toda a viagem.

Ao longe, sete ou oito crianças brincavam na berma da estrada. Decidimos logo que iam ficar ali os nossos últimos rebuçados de mentol. Primeiro, a maior indiferença; quando a primeira arriscou, gerou-se o entusiasmo; e, num ápice, deflagrou a batalha campal. Em dois minutos, as crianças desgrenhavam-se, esgravatavam o chão e chocavam de cabeça contra as portas do carro. Lutavam por rebuçados de mentol. Era demais para mim.

Nunca me sentira tão arrependido de interfe- rir na vida de gente que me é estranha. Pedi ao Pedro para fechar a janela e, por duas ou três vezes, pisei com força no acelerador, tentando que o troar do motor as separasse. Umas pararam, mas outras somente se afastaram. Então, decidi deixar aquele horrível cenário.

Mas, passados uns duzentos metros, fiz inversão de marcha. Afinal, eu tinha criado a confusão. Não podia simplesmente ir embora. Quando cheguei junto a elas, já ninguém rebolava pelo chão. Agora, todas se juntavam num círculo. Saí do jipe e aproximei-me. No meio, uma rapariga com oito ou nove anos choramingava. Olhei para baixo e vi-lhe o pé. Torcido. Partido.

E eu era o responsável. Tinha-a atropelado. Ninguém parte o pé a lutar com raparigas da mesma idade. Tentei falar com ela, mas não sabia francês. Ninguém ali falava francês. Há quilómetros que eu não via uma casa ou algo que pudesse ter um telefone. Nervosamente, eu repetia “hospital, hospital”. Mas nada, ninguém percebia nada.

Pensei em regressar ao jipe e procurar um telefone. Isso, ia fazer isso. Mas, antes de sair dali, num gesto que ainda hoje não percebo se me choca, peguei na mão dela e fechei-a num rolo de dirhams. Não sei quantos. Provavelmente, mais do que o suficiente para sustentar uma pobre família do Atlas e toda a sua prole durante um ou dois meses. Não era para comprar a minha redenção. Queria… sei lá o quê. Passei-lhe a mão pelo cabelo e voltei ao carro. Tinha que arranjar forma de telefonar.

Andei, andei e nada. Não se via uma merda de um restaurante de estrada. Foi então que, separadas por cinco minutos, cruzaram-se connosco duas ambulâncias. Mesmo que não tivessem sido chamadas para a menina, iam passar por ela. Naquela estrada, não havia forma de não passarem por ela.

Uma hora à frente, estava Marrakesh. Chamam- -lhe a “Pérola do Sul” ou a “Cidade Rosa”. Para mim, significou quatro horas de uma terra que não vi como gostaria e que não senti como queria. Não havia forma de recuperar aquela disposição da manhã.

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Sexta-feira, Abril 07, 2006

Na retrete (Ouarzazate, 2003.03.04)

Nós andávamos à procura. Ele apenas andava por ali. Era um professor universitário francês que até falava português. E apontou-nos o Es-Salam porque não era caro nem mau.

Sei que fizeram tombar sobre o homem as mais terríveis maldições, mas é chegada a hora de o dizer: a 3 contos o quarto, as torneiras não têm banho de ouro. E até são admissíveis as toalhas rasgadas e o papel higiénico que não aparece. Nesses momentos, tem é que se pensar que há pior. E passo a transcrever com uma pronunciada vénia pela aromática lição de vida:

"Uma das casas de banho estava espectacularmente entupida: a única que restava era utilizável, mas não convidativa. Como quase todas as casas de banho egípcias, a retrete estava equipada com um pequeno cano (não muito diferente do bocal de um fagote) que esguichava água para cima para abluções íntimas. O cano tinha uma orla de excrementos de uma pessoa qualquer. (…) Em criança, a minha primeira visão de uma casa de banho de buraco no chão foi em França (…); mais tarde, a minha aculturação iemenita ficou completa quando renunciei ao papel higiénico.

E [tenho] algumas recordações menos felizes: aquela vez em que os meus óculos, lubrificados pelo suor, me escorregaram do nariz para um buraco malcheiroso perto do Mar Vermelho, e o horror, o horror de um cagatório público nos arredores de Simferopol."

Porque, na realidade, quando é chegada a hora, há é que senti-la com prazer. E sigo em respeitosa homenagem:

"Tenho muitas recordações agradáveis de defecar em lugares distantes: num alpendre sem porta com vista para o Estreito de Harris, cravejado de ilhas; no baluarte de um castelo iemenita situado sobre um penhasco alcantilado, com o vento a soprar por ele acima; fustigado pela espuma das ondas na popa de um
sambuq ao largo das ilhas de Kuria Muria; dentro do guarda-fatos de uma mansão otomana em Safran Bolu."

Fecho com um puxão de autoclismo: quem não quiser, que se encolha.

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Quinta-feira, Abril 06, 2006

Thriller em Mollywood (Aït Benhaddou, 2003.03.03)

Quando tinha um bom punhado de quilómetros pela frente, decidi levar a estrada de Er Rachidia para Ouarzazate na descontração; quando tinha mesmo que ganhar tempo, fui aliviado de 400 dirhams por excesso de velocidade. Em suma, fruto das minhas ponderadas opções, acabei por chegar a Aït Benhaddou eram já 6 e 10 da tarde.

Faça-se justiça, é por esta hora que o ksar ganha mais encanto. Só por aqui andam os que cá vivem e o sol decide vir corar o ocre destas paredes de adobe. Às 6 e 10 da tarde, quem é estrangeiro sente-se mais estrangeiro. E acolhe o convite de coração aberto.

Já não me lembro do nome dele. Lembro-me que era tuaregue e que dizia que tinha sido figurante no “Gladiador”. Ali mesmo em Aït Benhaddou, por onde também andaram as câmaras que filmaram “Lawrence da Arábia” e a “Jóia do Nilo”. Era um homem alto, garboso, com barba rala e figura de chefe de clã.

Era também um compêndio de negociação. Falava baixo mas com firmeza. A sua loja tinha aquela camada de pó que nos fazia pensar em autenticidade. E mesmo que ali houvesse um tapete ou uma espada feita por chineses, o fumo das chávenas de chá levavam-nos para tempos antigos.

Durante uma hora e tal, tentei que o meu francês à Bolöni com entoação à Chirac lhe fizesse ver que havia um limite para o que eu podia gastar. Mas, entre as minhas simulações de retirada (porque era muito o que ele pedia), os seus lamentos por uma família grande a sustentar (porque era pouco o que eu oferecia) e um incontável número de sentidos abraços (porque a nossa amizade não estava em causa), acabei por trazer um fantástico tapete e um pilão de almofariz que ainda hoje me apaixona.

No fim, paguei muito menos do que ele pedia. Mas talvez tenha pago mais do que era o preço. Certo é que com o nosso acordo tinha também chegado a noite escura. E numa terra feita de terra, água e palha, não se pode esperar mais luz na rua do que o luar e os pequenos candeeiros em cada casa.

Só olhos treinados nos conseguiriam encontrar o caminho de volta. Não os nossos, certamente. Acompanhámos o último abraço com os bons augúrios com que os amigos se despedem (“Que o Profeta guie os teus passos na estrada da vida”) e seguimos atrás do jovem empregado do tuaregue.

Um vendedor já embriagado insistiu para que lhe comprássemos um tapete. “Não tenho mais dinheiro” e acelerei o passo. Mais à frente, o miúdo descia de pedra em pedra, com a Fátima, o meu irmão e a namorada a esforçarem-se para o acompanhar. Era como se tivéssemos os olhos fechados. Não víamos mais que dois metros adiante, mas não podíamos perder o nosso guia na sua gincana entre as mais estreitas ruelas. Ou seja, íamos mais rápido do que era aconselhável, fazendo daquela descida uma atabalhoada escorregadela no escuro.

Até que começaram os gritos. Primeiro ao longe, depois cada vez mais perto. Traziam lanternas e davam ar de seguir exactamente o nosso caminho. E foi quando chegámos à margem do rio, que percebemos que ali éramos a presa. Eram dois e o modo como agitavam os braços acabou com as dúvidas. Pior, galgavam aquele terreno pedregoso com uma incrível agilidade. De tal modo que, quando terminámos a assustada travessia do rio, já apenas um par de metros nos separava deles.

Finalmente, alcançaram-nos. E agarraram o miúdo pela camisola, enquanto lhe gritavam com violência. Os nossos olhos estavam mais habituados ao escuro, mas não o suficiente para percebemos o que se ia passar. Então, enquanto eu agarrava o meu canivete, o Pedro aproximou-se deles e, do alto do metro e oitenta e tal, disparou forte em português: “O que é que se passa aqui?”

Talvez eles não estivessem à espera. Talvez pudessem esperar para resolver o seu problema. A verdade é que tudo ficou por ali, num feliz anti-clímax. Ainda deu para vê-los atravessar o rio. Ainda deu para ouvir as suas vozes a troar. Para mais não deu: estávamos já em trote rápido dali para fora, ainda a tremer com o susto de uma vida. Vá, com o susto de uma viagem.

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Sexta-feira, Março 31, 2006

Life Support System

Para onde quer que eu vá, seja praia ou deserto, selva ou cidade, há três coisas que têm sempre lugar cativo na bagagem.

Ou porque as acho indispensáveis ou porque podem fazer falta ou simplesmente porque nem ocupam muito espaço. Na realidade, elas vão porque sim. Vão porque sempre foram.

Posso estar apertado num avião e ter que aterrar no meio de 38 graus centígrados. Mas uma coisa eu garanto: as minhas botas Timberland estão calçadas. Adoro-as. Atravessaram comigo um rio marroquino infestado de bilharzíase (sem deixarem entrar uma gota), protegeram-me das cobras no capim do Botswana e suportaram um dilúvio nas Terras Altas da Escócia (sem deixarem entrar uma gota). Acho que isso faz delas minhas amigas. E se nada disto tivesse acontecido, gostava delas na mesma. Muito.

Coisa número 2: a lanterna Maglite. Comprei-a por dar a melhor iluminação. Vim depois a saber de um assaltante em Joanesburgo que ficara KO por ter levado com uma na cabeça. Rebentou-se toda ao cair no chão, mas isso nada retira à multidisciplinaridade do objecto. Seja como for, é tão boa que substitui os faróis de um carro. E depois tem o peso certo que uma lanterna deve ter.

Já o meu canivete Opinel foi encontrado em Florença num Fiat de aluguer. A partir daí, nunca mais deixou de ir comigo para fora. Eu sei que a Fátima pode ter razão: depois do encontro com os detectores de metais do Museu do Vaticano, porque é que insisto nestas companhias? Mas imagine-se que eu precisava dele um dia. Aí, dava mais jeito se ele estivesse ao pé de mim, certo?

Quinta-feira, Março 30, 2006

A drogaria (Merzouga, 2003.03.03)

O primeiro cavalo que montei chamava-se Absinto.

E o meu primeiro camelo era o Jim Morrison.

Agora pergunto: mas eu tenho cara de quê?

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Quarta-feira, Março 29, 2006

Sahara (2003.03.03)

Em Erg Chebbi, encontrei uma fonte de alma. Só mais tarde percebi que tinha ganho uma nova textura. Hoje, faz-me falta aquele imenso.

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Terça-feira, Março 28, 2006

A filha do profeta (Merzouga, 2003.03.02)

Sabia que ele se chamava Aziz, que esperaria por nós em Erfoud e que ia ser o nosso guia pelo deserto. Na verdade, eu só não sabia por onde é que ele andava.

Para já, todos ali diziam chamar-se Aziz e todos eram sobrinhos do Ali Cojo. Mas daquele por quem esperávamos há tempo demais, não havia sinais. E o certo é que, com todo aquele atraso, já íamos cruzar o deserto à noite. Foi então que ele apareceu. Passada larga, nariz de águia e claramente estrábico: era Aziz, o genuíno.

Até chegarmos às dunas, tínhamos o deserto na sua face mais agreste: a hammada. Uma pista de terra com pedras soltas a açoitarem o jipe e um leque de poeira a abrir-se atrás de nós. Foi aí que o ouvi pela primeira vez: “Piano, piano se va lontano”. Abrandei. Não havia como não confiar num homem que parecia ter o deserto cartografado na cabeça.

De repente, vindo do nada, o Aziz tombou um braço sobre a cabeceira e, com ar melífluo, apontou para a Fátima e para a Raquel: “Tu és a Fatimah e tu és a Khadija”. O espanto foi geral. Então, perguntei-lhe:
- Aziz, o nome dela é mesmo Fátima. Como é que sabias?
- Fatimah? Não pode ser! Vocês não são muçulmanos.
- Não. Somos portugueses. Mas eu vivo com ela. E chama-se Fátima.

Só acreditou quando viu o passaporte. Era algo que ele dizia às estrangeiras, uma brincadeira. E aqueles eram nomes comuns entre as muçulmanas. Fatimah era o nome de uma filha de Maomé, como Khadija era o nome da sua primeira mulher.

Íamos já montados nos camelos, a ondular pelas dunas, e o Aziz ainda repetia a história a todos os berberes da caravana. Um a um. Maçando.

Quanto a mim, estava fascinado. O céu tinha a cor mais negra que podia existir e era adornado pelas mais refulgentes estrelas de sempre. Com a gentileza de um trovão, o Sahara começava a fazer parte de mim.

Às cinco da manhã, encontrámo-nos de novo. Desta vez na companhia do sol, que se levantava vermelho atrás das dunas de Erg Chebbi.

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Segunda-feira, Março 27, 2006

Estradas dos Solitários (2003.03.02)

Até ao último metro que fizemos em Fés, nunca deixámos de estar desorientados. Sabíamos que o Sul era o destino e que a N8 e a N503 levavam-nos ambas para baixo. Mas ambas teimavam em aparecer.

Quando uma tímida seta apontou a N503, atirei-me para fora de toda aquela desori- entação. E deixei a labiríntica Fés para trás. Ainda faltavam 450 quilómetros para chegar à minha paragem, mas agora sentia-me inexplicavelmente perto.

Aos poucos, a N503 ia-me dando a ideia de não ser uma estrada de carros. Ou motas ou camiões. O alcatrão era decente e as curvas não eram de entontecer. Mas ninguém se cruzava connosco. Lembrei-me da máxima do meu pai: “Se um restaurante está vazio, é porque não é boa a comida”. Estaria a estrada cortada? Teria salteadores? Ou polícias corruptos?

Ainda hoje não sei porque é que a N503 não era uma estrada para Norte. Também não perguntei. Nem aos solitários que nos apareciam de meia em meia hora a patrulhar os seus rebanhos monte abaixo. Porque esses encontravam no serpentear do alcatrão as únicas manifestações de vida em tardes inteiras sozinhos com os seus pensamentos.

Qualquer carro que passasse ia na direcção de uma vida melhor. Para eles, alguns com 8 ou 9 anos, o fim da estrada era o sonho que havia uma tarde de aparecer. E um só carro que fosse era um sinal de esperança.

Para nós, a N503 (e depois a N13) passou a ser uma estrada de fantasia, onde as mais perfeitas rectas de todo o mundo corriam emolduradas pelo Atlas. Mas era também o chegar do sonho: estávamos a caminho das dunas do deserto.

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Quarta-feira, Março 22, 2006

Perdidos por Fés (2003.03.01)

Já era noite quando chegámos a Fés. Os candeeiros pouco ajudavam, mas percebia-se a muralha da Medina à nossa esquerda. Ali dentro algures, tínhamos duas camas à espera. Agora, só faltava mesmo o golpe de sorte que nos mostrasse o caminho. Porque, até ver, era oficial: estávamos perdidos.

Na rua, os albornozes cruzavam-se como formigas, entre uma procissão de Mercedes amolgados e carroças a entulharem o alcatrão. Parecia que ninguém tinha vontade de ir jantar a casa. Em contraste, o silêncio era total dentro do jipe. Com receio da resposta, ninguém arriscava perguntar. Mas nada tinha mudado: eu não sabia por onde estava a ir.

Às tantas, cansei-me e parei. Supostamente, para olhar para o mapa. Na realidade, para respirar um pouco e orientar as ideias.

Foi o suficiente para as formigas voltarem a cabeça. E subitamente, um a um, apareceram todos os guias amadores da cidade. Há sítios onde os desempregados se tornam pedintes. Aqui, fazem-se guias.

Farto de estar perdido e de enxotar um coxo e depois um barbudo, fiz por me ver livre da desconfiança. O Mohammed até podia ser um habitué nos alinhamentos das esquadras de polícia, mas o maior dos nossos riscos era dormirmos na rua. Então, abri-lhe a porta do carro: “Tem a certeza que sabe onde fica o hotel?”

Ser céptico não me garantiria uma almofada para a noite. E confiar no Mohammed levou-nos direitos aos nossos quartos e a uma tajine de cabrito. Os espíritos estavam renovados, mas para mim iniciou-se uma história de inimizade com a cozinha marroquina.

No dia seguinte, pouco mudou. Sentíamo-nos perdidos. Mas, desta vez, o Mohammed levava-nos por um cenário de filme de época. Aquelas ruas estavam ali desde 789, toscas e velhas como um carvalho retorcido que não se deixa de admirar. E a fazer de Fés a cidade mais intemporal e extraordinária que Marrocos tem para oferecer.

Que sempre assim fique. Inch’Allah.

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In the Cave of the Swimming Men

Hoje, deitei-me às 3 e 10 da manhã para ver um filme que terei visto umas 6 vezes. Até o tenho em DVD, mas sei que nunca o conseguirei abandonar numa qualquer sessão tardia de televisão.

Há filmes que me deixam numa espécie de deslumbre hipnótico. Seja pela fotografia. Talvez pelo som. Ou sobretudo pelo cenário. Enfim, em tudo sinto um chamamento que me reaviva os sentidos.

Sei também que não sou o único a ter em “O Paciente Inglês” e “África Minha” os filmes da vida. Mas, e peço desculpa por isso, é a minha África que lá está.

Não nasci lá. Nunca lá tive uma quinta. E até a encontrei tarde. Mas desde que cheguei ao deserto e à savana, fiquei refém de um sortilégio: é à distância que a adoro, mas nunca de lá consegui sair.

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Quinta-feira, Março 16, 2006

Verde no azul (C'haouen, 2003.03.01)

Todos conhecemos Chefchaouen. Há quem não saiba, mas já se cruzou com as suas portas e janelas. E já olhou com espanto para um dos dois azuis mais extraordinários de todo o mundo.

Fica no Norte de Marrocos e é uma terra de fantasia a que não se pode ficar estranho. Mas é terra onde as portas não se abrem para a liberdade.

Aos 26 anos, o Oued foi à procura dos dias livres e atravessou o mar até Bruxelas. Mas a vida não lhe dera esse desígnio e teve que regressar. Para a Chaouen que é azul, mas onde se entende que a relva cresce mais verde para Norte.

Se fosse uma personagem de Mackintosh-Smith, talvez dissesse que “no estrangeiro, a fortuna dar-te-á uma pátria; na pátria, a pobreza fará de ti estrangeiro”. Ou que o Magrebe não é uma janela azul para a oportunidade. Mas, aos 41 anos, apenas encolhe os ombros com resignação e deixa os olhos brilhar quando fala da Grand-Place.

O Hassan nunca saiu. Enquanto ele sorri compro- metido, ponho-me a pensar que a sua oportu- nidade deve estar em Chefchaouen. Se há gente que vende a senegaleses e malianos um bilhete para a morte anónima numa jangada, eles devem ter estes olhos e este bigode. Mas também pode ser a minha imaginação a trabalhar. O Hassan não fala muito.

Vencer o Estreito de Gibraltar é um sonho antigo. Hoje no caminho para Norte, como dantes era ao contrário. Até 1920, só três infiéis tinham percorrido todos os 100 quilómetros que separam a Europa de Chefchaouen. E apenas um sobreviveu para dizer que a relva também cresce verde para Sul.

Foi também em Chefchaouen, acompanhado daquele incrível azul que acena às janelas e acolhe nas portas, que descobri que o verde também crescia para Sul. Aí, começou a minha viagem.

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Terça-feira, Março 14, 2006

Gente fina (Tanger, 2003.03.01)

Tinha conduzido a noite toda, mas bastou sair do ferry em Tânger para logo perceber como os marroquinos são prestimosos.

No porto, todos lutam para que nada vos falte. Ora pedem o passaporte ou o visto ou de novo o passaporte. E nem terão que ser funcionários da alfândega. No nosso caso, eram cidadãos comuns que prescindiram do Sábado de Carnaval para que não nos sentíssemos desamparados.

E num gesto que achei ser de acolhimento, era vê-los a esticar o braço com a palma da mão para cima. Na mais humilde ignorância, acabei por deixar uma ou outra moeda naquelas mãos abertas. Espero não ter ofendido ninguém.

Como o bem-estar do estrangeiro é uma prioridade, tivemos até dois marroquinos a buzinar alegremente atrás de nós durante 2 ou 3 quilómetros. Às tantas, lá passaram ao nosso lado e até quiseram que ficássemos com uma espécie de pequeno sabonete acastanhado. Houve quem dissesse que era haxixe, mas não acreditei.

E depois, as crianças a seguirem-nos em pelotão e a desejarem-nos as boas vindas na sua língua. Ainda me lembro das suas vozinhas: “Baksheesh, Basksheesh”.


P.S.: Fora de coisas, vocês têm um país extraordinário. Deixem lá o pessoal curti-lo.

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Segunda-feira, Março 13, 2006

Carta a um pobre desgraçado

Caro Manel Gomes da Costa,

Onde quer que estejas, espero que esta carta te vá encontrar de saúde.

Provavelmente, estás numa qualquer escala de aeroporto a caminho do 41º país que vais visitar. Tens que ter paciência.

Sabes que eu te compreendo. Calculo que ser director de fotografia da “Volta ao Mundo” implique grandes sacrifícios.

Ainda por cima, sei que não teres que pagar para viajar não está de acordo com a tua estatura moral. Mas, olha, tens que aguentar.

Faz então boa viagem e traz-me uma concha ou coisa assim.

Domingo, Março 12, 2006

À boleia dos faraós (2003.01.02)

No último dia no Egipto, dei por mim a pensar em dois programas que tinham escapado: dar uma volta de feluca e ir aos dervixes.

Andar de feluca não era propriamente uma aventura. Era somente encontrar num pequeno barco à vela a reclusão que já nos fazia falta e um silêncio que nunca tínhamos tido. Uma feluca no Nilo talvez desse para isso. Mas não calhou.

Já para a dança dos dervixes tudo estava combinado. Só que um voo doméstico atrasou-se e ficou tarde demais para reencontrar o invulgarmente simpático e paciente Mohamed Sempel. Ou seja, e sendo um taxista, uma autêntica vergonha para a profissão.

Levou no táxi dois estrangeiros cheios de lama e sem qualquer dinheiro no bolso. Ofereceu um cigarro quando acendeu o dele. E deu o número de telefone para o caso de virmos a precisar.

Foi tudo pela gorjeta? Provavelmente. Mas soube merecê-la. E não é fácil guardar a serenidade numa cidade onde as auto-estradas se atravessam a pé e as mudanças de direcção se assinalam com a buzina.

Em suma, este texto destina-se a aplaudir vigorosamente o sistema de transportes egípcio. E inclusive a ovacionar de pé a Egyptair, que me deixou fumar 4 cigarros no voo Cairo-Lisboa.

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Sexta-feira, Março 10, 2006

Abu Simbel e o Marlboro Man (2003.01.01)

Eram 3 e 48 da manhã e mal conseguia pensar com aquele frio. Só tinha dormido três quartos de hora, o meu cobertor tinha a espessura de um lençol e o ar condicionado da carrinha não funcionava. E, para cúmulo, nem havia sinais do batalhão militar que nos iria escoltar até Abu Simbel.

Ainda com frio, acabei por adormecer. Mas um par de horas depois, o calor acordou-me. Rodávamos já pela estrada do deserto e uma placa dizia que o Sudão estava a menos de 60 quilómetros. Feitas as contas, o templo de Abu Simbel devia ficar a uma meia hora.

Já tinha lido sobre a incrível descoberta do templo depois de séculos e séculos enterrado na areia. Já me tinha espantado com a sua desmontagem pedra por pedra para o reconstruírem 210 metros atrás. Mas nunca se está preparado para Aquilo.

Esmagador. Esmagador e perfeito. Não digo mais. Não é para palavras.

Já no regresso, enquanto cabeceava de sono, pensara de novo na galabiyya que tinha comprado e perdido no dia anterior, algures no souq de Aswan. Mas, ali, apenas um dia passara e já todas as ruas já me parecerem diferentes. Tinha fé na memória visual da Fátima, mas não foi a solução. Perdidos em Aswan, capítulo 2. “Bem, vou só ali comprar um volume de Marlboro e depois recomeçamos."

Antes de mais: eu sei que não se compra tabaco a alguém que anda a pé por um mercado. Mas ele tinha um volume na mão e só pedia 120 libras egípcias (3 contos e picos na altura). Por isso, parei e enfiei-lhe uma nota de cem na mão. Ele pediu mais 20 e eu disse-lhe que lhe dava mais 5. Ele concordou.

Então, enquanto eu procurava pela nota certa, ele esticou dois dedos para uma de 50 libras e passou-me o tabaco para a mão. Meio aturdido, pensei: “Espera. O que é que se passa aqui?” Atirei-me para a frente, arranquei-lhe a nota e gritei meio em inglês, meio em português (este só para os palavrões): “There’s no business anymore! Give me my money!”

“No problem, zir. We do bisness. Happy new yer” dizia ele. Nessa altura, já eu trazia na mão as minhas 100 libras e um rasgão da sua algibeira. Fechei o punho junto ao nariz dele e, aos gritos, ameacei esmurrá-lo. Mas aquele ataque de fúria tinha chamado a atenção e, em nosso redor, juntara-se uma pequena multidão.

Senti medo pela Fátima e por mim. Talvez tivesse exagerado. E começávamos a andar mais depressa quando ouvi “Portugal! Portugal!”. A face não me era estranha, mas só percebi quando o vi a agitar na mão uma espécie de veste comprida. Finalmente, tinha encontrado a minha galabiyya. Ou, melhor, ela descobrira-me a mim.

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Terça-feira, Março 07, 2006

Um reveillon egípcio (MS Voyager, 2002.12.31)

As doze passas dispensam-se. O bolo rei só se suporta sem as frutas cristalizadas. E o champanhe são dois golos numa bebida de um só dia.

Mas já me faz falta a contagem decrescente. Porque é assim que se fica a saber.

Ao menos que um egípcio desse as horas em árabe. E que deixassem guardada a mais feia de todas as dançarinas do ventre.

Ao menos isso.

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Nasser, o ignóbil (Aswan, 2002.12.31)

Assim que nos viu no cais, armou a vénia. Dobrado pela cintura, abriu os dois braços num gesto que restara dos tempos coloniais. Mas agora já não era subserviência. Era negócio. Então, quando chegámos perto, ergueu-se e sibilou num esgar de dois dentes: “Pour le souq, messieurs?”

Nasser, condutor de caleches, tinha daquelas faces em que instintivamente não se confia. Conseguia sorrir com facilidade e gastar só um segundo para carregar o cenho. Mas o longínquo souq de Aswan era o nosso destino.

Era um mercado de caos e poeira, como em qualquer cidade do deserto. Ali, as bancas de tecidos, frutos e especiarias eram serventia para a maioria árabe e para os últimos núbios. Só nós violentávamos a genuinidade, com a nossa palidez deslocada e os nossos olhares circunspectos.

Sabe bem não ter ocidentais à vista. Porque são sítios como estes que me entregam à ilusão do viajante. Às vezes, até do explorador. E aí, até desdenho dos aforismos (“o viajante vê o que vê e o turista vê o que veio ver”, GK Chesterton) de que não discordo. Porque o crédito está nas minhas botas empoeiradas e nos sons que só os meus ouvidos não compreendem.

Foi um acidente o reencontro com a rua principal. Nasser já nos tinha visto e preocupava-se agora em empurrar quem já nos oferecia os seus serviços. O modo como dizia os erres era seco e desagradável enquanto agitava os braços até nós. Quase tão desagradável como a sua sinistra suavidade. Então, desconfiado como nunca, procurei confirmação para o preço: “Nasser, deux euros?”

Bruscamente, atirou uns olhos faíscantes para trás. Que não tinha sido esse o acordo com o pobre Nasser e que um acordo não devia ser traído. “Dix, dix” repetia, abanando a cabeça. Falando da garganta, acusei-o de querer enganar-nos. Sobrepus a voz à dele e ameacei sair da caleche. Então, pondo os olhos no chão e erguendo o dedo ao céu, jurou: “Pour le Dieu”. E repetiu: “Le Dieu, le Dieu”.

Aquilo pareceu-me solene. Um bom muçulmano não invoca impunemente o nome do Terrível, pensei. Naquela terra de nenhures, perdi a segurança para lhe contestar a devoção. E fechei com um vencido "Nasser, you are not a good man".

Até que o sorriso do condutor regressou. “Hasheesh? Hasheesh?” Era uma oferta. Não ia ter que pagar. Percebi então que já tinha pago o suficiente. Afinal, era um turista em Aswan.

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Sábado, Março 04, 2006

2002.12.29, Pelo Nilo

Sempre desconfiei de cruzeiros. Tinha a ideia de que me iria cruzar com gente com quem nunca escolheria estar. E, pior, de quem não conseguiria escapar.

Hoje, por experiência, falo. Num cruzeiro, pode-se ter que jantar com uma professora primária em missão de ódio (“isto são gourgettes, não é? Põem gourgettes em tudo!”), pode-se ter que fumar sem-filtros egípcios (“only wone we ave, zir”) e até ser-se olhado de lado porque todos os outros se disfarçaram de xeques ou odaliscas.

Hoje, por experiência, digo. Fazer um cruzeiro é um exercício de fé. É aceitar com um sorriso uma venda nos olhos. E esperar que o cozinheiro não tenha comprado gourgettes a mais.

Hoje, por experiência, concluo. Levem-se amigos. Cinco ou seis. E depois siga-se para o Nilo e reservem-se os fins de tarde para ver os montes a corar atrás das palmeiras.

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Sexta-feira, Março 03, 2006

O Companheiro de Viagem

Esta semana, fiz as contas: começámos a viagem há 28 anos.

Umas vezes deste-me boleia. Outras, apanhei-te no caminho. Até que, há sete anos, decidimos partilhar a estrada toda. E resultou na Viagem. Mesmo.

Mas, entretanto, descobrimos a perversidade dos bancos da frente. É que, lado a lado a fazer quilómetros, deixámos de olhar um para o outro. Era mais fácil ir seguindo o caminho pela janela.

E até esquecemos que ninguém como nós põe mais entusiasmo num mapa. Ou consegue encontrar magia nas linhas de um road book.

Ontem, com a viagem a acabar, lembrámo-nos do que era olhar de frente. E gostei de sentir que as viagens terminam, mas os caminhos permanecem.

É que às vezes, companheiro, é melhor olhar pela janela. Vai na volta, até nos vemos melhor assim.

Quarta-feira, Março 01, 2006

2002.12.29, Luxor e Karnak

Montado num burro, o jovem nobre inglês era o primeiro no topo da duna. Pela frente, já se via o templo. Estava deserto. E o silêncio era absoluto. Pelo menos, até chegar a caravana dos carregadores.

Estávamos no Século XIX. Eram os tempos do Grand Tour. Era o turismo a nascer, nos dias em que 1900 anos de História não tinham a companhia de 1900 máquinas fotográficas.

Luxor e Karnak são magníficos. Verdadeiros testemunhos de poder e resistência. Quem me dera tê-los encontrado de burro…

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Terça-feira, Fevereiro 28, 2006

2002.12.29, Vale dos Reis

Bendito foguete que rebentava às 5 da manhã. Era sinal que o autopluma do Grupo Excursionista “Os Bagacinhos” finalmente saíra à conquista de Fátima ou de Badajoz. Afastavam-se os tachos a roçar dentro dos sacos de palhinha. Acabavam-se as estaladas no ouvido de um puto mais irrequieto. E quem morava junto à Tasca do Saraiva podia voltar a adormecer.

Já bem longe dessa adolescência, era agora a mim que o asfalto levava. Estava em excursão. E chegara a uma pedreira árida que falhou em me impressionar: o Vale dos Reis.

Via-se o primeiro túmulo. Esse seria um plano decente. E deixaria de se achar este Vale dos Reis como um tépido déjà-vu de caves descoloradas e gente demasiado expressiva. Já fora o destino dos deuses. Agora, era Turismo.

Valeu-me o bom Ahmed Ahmed, o escultor de alabastro. Pouco mais tinha que a esperança de melhores manhãs. Mas era genuíno.

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Tintin e Astérix

Aos doze anos, o João Vieira Pinto já cacilhava e levava miúdas para os caniços. Com essa idade, entretinha-me eu com outros prazeres menos luxuriantes: viajar com o Tintin e o Astérix.

Eles foram o meu primeiro passaporte para longe. Para o Egipto, para a Helvécia ou para a imaginada Sildávia. E explicaram-me que viajar é uma mentalidade. Não se faz só pelo gozo ou para ver sítios bonitos, faz-se para abastecer o espírito.

Todas estas viagens estão já irrequietamente à espera do meu filho. Espero que se sinta tão compensado quanto eu fui.

E que não evite a companhia do jornalista belga, só por não se lhe conhecer uma parceira, ter aquele penteado intrigante e andar sempre a passear uma cadela.

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Domingo, Fevereiro 26, 2006

2002.12.27, Cairo (Parte III)

Nunca quis ter neste espaço um diário de viagem. Prefiro não chamar aqui detalhes que perdem significado fora do ambiente. Só que hoje saio do Cairo a fazê-lo. Perco na habilidade das minhas palavras, mas junto os sons que fizeram o momento. Pode ser que ouvir enquanto lêem vá mascarar o aborrecimento.

Era Sexta-Feira, o dia sagrado do Islão. Completamente deserta, a mesquita de Sultan Hassan recolhera-nos num silêncio de sepulcro. Ali estávamos, dois infiéis ainda em tempo de paz, e pela primeira vez sentíamos o Cairo tranquilo. Estranhamente, mesmo lá fora, a cidade estava muda e inerte. Foi então que surgiu.

Num chamamento do outro mundo, o troar de mil gargantas encheu os ares. Gutural e temível, como dum exército de fantasmas: “Aaaaaaaallaaaaah”. Ainda hoje me recordo da entoação com que aquela prece encheu os ares. Ao mesmo tempo tétrica e profunda, fez-nos estremecer. Por dez segundos, sentimos um medo irracional.

Há um Cairo mais moderno, salubre e turístico. Mas o Cairo que para nós ficou foi o das vidas amargas. E dos momentos atmosféricos. O Cairo da eternidade, que nos maravilhou para lá do indefinível.

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Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

2002.12.27, Cairo (Parte II)

Desenganem-se os intolerantes: as preces vencem no bilenar Misr al-Qadima, que é bairro de árabes cristãos. Como na deserdada Sharia Gamaliyya, onde os árabes muçulmanos dobram a Allah.

É decrépito o Cairo, fechado por um céu de negrume e levado pelas mais lamacentas das ruas. Caminhei por sítios de mil anos, vigiado por minaretes e senti uma iniquidade que pode nem ser daqui.

Na verdade, estava no escuro das minhas convicções. Longe do meu país. Longe de uma língua que percebesse. Mas, mais que tudo, desterrado do meu século.

Estava nas mãos desta cidade de fé. E total e completamente fascinado.

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Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

2002.12.27, Cairo (Parte I)

“Travel makes one modest. You see what a tiny place you occupy in the world.”

Sei que em 1849 Gustave Flaubert esteve no Cairo. Só não sei se ele disse esta frase pelo Cairo. Sei que se assim fosse, era apenas justo.

Até ao Egipto, sempre andáramos por sítios onde os táxis acendiam as luzes à noite e os telhados não eram depósitos de lixo. Sítios onde as mulheres nas ruas eram tantas como os homens e onde o aroma do sésamo não escapava de casas de uma assoalhada.

Dá que pensar: até ao Egipto, não saíramos realmente de casa. Mas chegáramos ao Cairo, a “Mãe do Mundo”. E partilhávamos a maior cidade de África com mais 16 milhões de almas.

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2002.12.27, Planalto de Giza

Escrevi há algum tempo que consigo admirar as religiões pelo que os homens construíram em nome do seu Deus. Todas elas. Sem excepção.

Já não consigo admirar os homens que destroem em nome de um Deus. Ou de Petróleo. Nenhum deles. Sem excepção.

Quando pensámos no Egipto, soavam ainda os ecos de uma manhã de Novembro em que seis fundamentalistas islâmicos chacinaram 58 turistas e 4 conterrâneos em Deir el-Bahri. E, no écran da BBC, dava-se por iminente a invasão de um Iraque supostamente armado com a Destruição Maciça.

Talvez estes não fossem os dias certos. Mas também são belas as manhãs egípcias. E o peso do drama só mesmo num cenário obra de um Deus Vivo: tínhamos os olhos nas Pirâmides.

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Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

O "bapa"

No dia em que o meu filho nasceu, sussurrei-lhe que quando ele chegasse aos 15 anos, havíamos de subir juntos o Rio Níger.

Talvez lhe devesse ter dito que ele havia de ser um homem feliz e inteligente para poder navegar com sucesso entre as margens da vida. Mas, não, na altura deu-me para falar noutro rio. São coisas que se dizem.

Este Natal, ofereci-lhe um mapa. Um grande que afixámos na parede do quarto. Ontem, para meu espanto e deleite, o Afonso esticou o dedo e disse: “Bapa”.

Hoje digo-lhe onde fica o Níger. Temos que nos preparar para a vida.

2002.10.11, Barcelona (Parte II)

Anda-se em Barcelona. Há cidades onde tudo o que é de ver foi nascendo perto. Outras deixaram que as vistas se espraiassem. E põem-nos a calcorrear que nem peregrinos medievais.

Barcelona é assim. Sente-se ao andá-la. O que não ajuda se a nossa companheira de viagem traz uma gripe de Lisboa. Mas enfim, não há como assinar a rendição a todo este delírio de cor e euforia.

Então andámos. Por entre as fantasias alucinadas do Park Güell e do Passeig de Gràcia. Pela insana babel do Barri Gòtic e das Ramblas. Pelas lunáticas visões do Palau de la Musica e de Santa Creu i Sant Pau. Enfim, demo-nos à vibração do Modernismo, assombrados pelo génio louco de Gaudí e pelo meu favorito Domènech.

Tentei fazer entrar a palavra “vortex” neste texto. Deixo-a para o fim. Assim é Barcelona.

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Domingo, Fevereiro 19, 2006

2002.10.11, Barcelona (Parte I)

Quando me dispus a fazer um blog sobre “sítios, destinos e viagens”, planeei ir desfilando as minhas experiências por ordem cronológica. E, aqui e ali, intervalava com um post sobre generalidades ligadas às coisas de viajar.

Até hoje, ainda não me desviei do plano. Mas confesso que, em certos dias, não me apetece escrever sobre a data que se segue. Prefiro saltar para o Sahara ou para o Okavango. E isso é injusto. Porque me larga a pensar que aquele sítio – o seguinte – não terá sido assim tão especial.

Hoje sinto que prejudico Barcelona. Não por uma qualquer ânsia mais meridional. Desta vez não. É, isso sim, por familiaridade.

Já lá estive por 3 vezes. E sempre que lá vou, sinto-me na cidade fora do meu país onde viver me seria menos estrangeiro. E onde mais naturalmente dialogo com as máquinas de bilhetes do Metropolitano.

Em Barcelona, não estou em casa. Mas até podia estar.

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Sábado, Fevereiro 18, 2006

Theroux

Ainda vou na página 381. Portanto, faltam 114. Mas, mesmo que agora parasse, 'Dark Star Safari' já não saía do Clube dos Memoráveis.

É que Theroux não escreveu um mero travelogue. Desceu por África alimentando-se da sua energia vital e deixou-se desabar sobre mim como um murro no peito. Uma tempestade que ainda ando a tentar gerir.

Com instrumentos diferentes, o relato de Paul Theroux entrou no mesmo panteão onde já estavam Bryson (pelo humor) e Chatwin (pelos contos). É uma casa que os escritores de viagens me andam a construir e onde sempre aguardo por novas pedras e novos braços.

Porque, na verdade, a ficção é cada vez menos a minha literatura. Prefiro vidas que alguém viveu. Faz-me saber possível vivê-las. E até posso deixar os livros a meio.

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Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

2002.08.10, Pela Costa Amalfitana

Há sempre um momento para se chegar. E, por vezes, chegar um pouco antes ou um pouco depois não é o suficiente. Porque já não é o momento certo.

Uma das primeiras vezes que estive com a Fátima falou-se de Positano. Demoraríamos 17 meses a lá chegar. Até nem era muito, mas já passara o momento. Roma ficara-nos com a frescura e mesmo o espírito antecipava o regresso.

Valia o Punto, que nos arrastava em ziguezague pelas estradas de falésia. E que levava ao fim uma lua-de-mel onde o romance fora trocado pelos quilómetros.

Mas o Sul ainda tinha a Positano do sonho. A bela Positano que não tem que se esforçar ao céu, porque já por lá anda. Pena estar cheia. Pena ser Agosto.

Decididamente, não estávamos em forma. Pena por Sorrento, onde os anos sessenta pareciam ter estacionado. Pena por Amalfi, bela de ambiente e paisagem. Já Capri c’est fini, metendo no nosso último dia uma ilha de desilusão.

No fim, até o humor se esgotou. O momento já era de estar em casa.

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2002.08.09, Vaticano

Sou agnóstico. Mas tenho que admirar as religiões.

Na verdade, nunca ninguém me provou para lá do axioma que Ele e os outros Eles existem. Mas o que o Homem construiu em nome d’Eles conta-se entre as mais extraordinárias inspirações que olhos podem ver.

Nem sequer vou entrar pelo ímpio caminho de ter sido inconvictamente baptizado e ter inconvictamente casado numa igreja. Será assim tão difícil perceber que há quem se case numa igreja porque esse é o sítio mais bonito para se casar?

É que as igrejas são bonitas. Nas igrejas, está-se bem a ouvir os murmúrios das paredes. Nas igrejas, os raios de sol vão sempre pousar nos sítios certos.

E mesmo não sendo a mais linda igreja que já vi, a Basílica de São Pedro faz jus. Aliás, mesmo sendo o mais pequeno país do mundo, ter ainda aquele Museu e a Capela Sistina entrega ao Vaticano o melhor ratio de monumentos extraordinários por metro quadrado que um país pode ter.

Assim, mesmo que não se chegue a ver o Papa, ir ao Vaticano refina-nos os sentidos. E faz-nos ter que admirar as religiões.

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2002.08.07, Roma (Parte III)

A Piazza Venezia estava inundada de adrenalina enquanto eu derrotava repetidamente o código da estrada. Mas foi ali que me fiz para Roma. Aquele carrossel soltou-me e despiu-me da pele de estrangeiro.

A partir daí, a Fátima e eu caminhávamos ao ritmo dos nativos (certo e sabido como o primeiro passo para passar despercebido) e a olhar menos para cima (o segundo?).

Entrávamos na cidade com mais referências arquitectónicas em todo o Mundo, mas entrávamos com a frescura dos habituais.

E então, a cidade era nossa. Não tanto a Roma do Coliseu, da Fontana di Trevi e da Piazza di Spagna (onde se anda devagar), mas a Roma do marginal Trastevere e do periurbano Laterano.

Passo a passo, fez-se incomparável para nós. Bem merece os três posts.

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2002.08.07, Roma (Parte II)

O que tenho escrito sobre as minhas viagens tem algo em comum: anos de atraso. Anos de atraso para esses dias e talvez até anos de atraso para o momento em que os deveria ter escrito.

Percebi, no entanto, que esta tardia recuperação tem uma vantagem: as emoções deram vez aos pensamentos e produzem-se as verdades.

Uma delas tem uma semana de vida. Descobri que muito do sucesso de Roma se devia ao modo como cheguei à cidade. Ao volante de um Fiat Punto.

Não é fácil conduzir em ruas onde até os velhos se comportam como cadastrados sem redenção. A voragem perturba e acaba-se por entrar em sentidos contrários e cruzar duplos traços contínuos. Mas a impassibilidade dos carabinieri foi uma iluminação. Entendi que era assim mesmo. Tinha que ser rápido. Tinha que ser romano.

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Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

2002.08.07, Roma (Parte I)

Conhecera-o nessa festa. Parecia tipo com quem se podia falar. E assim foi, os dois, sobre as vidas com filhos e sobre os sítios com vida.

E, então, directo do limbo dos desajustados, irrompeu o outro: “Ah, mas Berlim é bem melhor que Roma!”.

Aquilo não era uma provocação. Antes fosse. Era antes mais um dos peremptórios a exercer o seu direito à cabotinice. Alguém que decidira que aquela discreta troca até era merecedora do seu apport omnisciente. Na verdade, o benemérito informador teve o condão de nos desanexar da conversa. Para quê? Tudo já tinha sido dito por Ele.

Mas a cena deixou-me a pensar: o que é isto de “ser melhor”? Já não nos bastavam as Mercer e as E.I.U. a arrogarem que Vancouver, Geneva, Melbourne e Zurique são as melhores cidades para viver e visitar? E que hoje a segurança é a palavra, por isso a cidade do Luxemburgo é a mais sadia das escolhas? Para além de tudo, ainda tenho que ouvir um insonso com meio carimbo no passaporte a falar em “ser melhor”?

Desprezo estas pretensas sumidades que nos abrem as portas dos seus sossegados espíritos. Onde é que está escrito que viajar já não é pela experiência? Regressar mais rico em dias que foram bons. Mas também em dias que se complicaram.

Roma nem foi a melhor cidade que conheci na Europa. Consegue ser excessivamente quente e irritar-nos com um incansável buzinar. Só que é um sítio para gente feliz. Por isso, e até ver, Numero Uno.


P.S.: O meu veneno teria ficado guardado se Você não confessasse nunca ter ido a Roma.

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Domingo, Fevereiro 12, 2006

2002.08.06, Pela Toscânia

Chatwin dizia que a Toscânia era um sítio de escrever. Aqui, saía-lhe.

Sem arrogância, percebo. É que o silêncio parece nunca desistir dos campos toscanos.

E o tempo não é sôfrego. Antes escolhe as piazzas para com os velhos dividir o sol das cinco.

Na verdade, eu nunca acordei na Toscânia. Ou lá li um livro. Eu passei pela Toscânia. Entrei na remota Barberino, fui emboscado por San Gimigniano e caminhei pela tão-demandada Siena. Mas, comigo por ali, o sol nunca se pôs.

Nem precisava. A Toscânia deu em seis horas o que eu imaginava receber. De novo, trouxe apenas uma ideia: este é um sítio de uma semana.

Só não se entende a mania dos ciprestes. Não se juntam em bosques, não fazem sombra e marcam encontros em cemitérios. Qual é a graça?

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Sábado, Fevereiro 11, 2006

2002.08.04, Florença

Dá-me a ideia de que a maior parte dos casais com que me dou têm filhos. Certo, certo estou é que nenhum deles é casado.

Só que tal minudência nunca os fez sentir indignos de uma lua-de-mel. Está bem que é oficiosa. Está bem que só sete ou oito meses depois se percebeu que tinha sido A Lua-de-Mel. Mas os casais vivem de datas e sítios. Então, é assim: ninguém foge.

A minha teve largada no Agosto de Florença. Uma Florença que alardeia superioridade. Faz-nos aqui e ali tropeçar em Michelangelo e Botticelli para se divertir em silêncio com a admiração dos comuns. Não é presunção, é senioridade. E é porque sempre nos encontra em arregalo, como se fosse um museu à luz de Sol e estrelas.

É museu. Só que, felizmente, Agosto deixa os japoneses mais moles.

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