segunda-feira, outubro 01, 2007

Despertares (Moremi-Savuti, 28.04.2003) *

Ainda não eram 6 da manhã. No horizonte, uma cor púrpura tingia o céu, prometendo mais um dia de calor. Pela picada, o camião Mercedes avançava com os faróis ainda acesos, espalhando à passagem uma fina película de areia dourada. Ainda estávamos dentro das fronteiras da reserva de Moremi. Mas se a viagem corresse sem acidentes, chegaríamos a Savuti pelo meio do dia.

Na maior parte do tempo, fazíamos o caminho a dormitar. Uns encostavam-se costas com costas, num precário equilíbrio a que os solavancos não ajudavam. Outros deitavam-se agarrados aos sacos-cama, tentando combater o gelo da madrugada. Ao sexto dia em África, já estávamos habituados a descansar no meio do desconforto.


De vez em quando, uma raiz mais atrevida emboscava-se na estrada e atirava ao ar uma ou duas rodas do camião. Como os amortecedores já há dias que davam mostras de cansaço, o Mercedes aterrava na picada no meio de um estrondoso ribombar de molas e aço.

Depois do solavanco, ficava o caos. As mochilas tombavam dos bancos vazios que ocupavam, os chinelos só voltavam a aparecer três fileiras mais à frente e ouviam-se um babel de imprecações. E, ocasionalmente, um ou outro passageiro que tinha sido apanhado na voragem era visto a levantar-se do chão da coxia, inspeccionando um novo arranhão num joelho ou cotovelo.

Nessas alturas, estimulado pelo safanão, pelo chilrear das rolas ou pelo Sol que ia mostrando o cocuruto, havia quem desse jeitos de acordar. Abria os olhos num arregalo, voltava a endireitar-se no banco e ocasionalmente bocejava e espreguiçava-se como se estivesse decidido a começar o dia.

Só que então voltava-se a sentir a lona dos assentos ainda húmida da noite. E percebia-se que o bocejo fizera uma pequena nuvem no ar ainda frio. Então, puxavam-se as mangas da sweat-shirt pelas mãos abaixo, reencaixava-se a cabeça entre os ombros e esperava-se alguns gélidos minutos pelo sono que haveria de reaparecer.


* Texto escrito em meados de 2005 e hoje publicado como análise comparativa à madrugada do último Sábado em que o meu filho se comportou como um hipopótamo raivoso.

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quinta-feira, agosto 30, 2007

Ancorados no cemitério

Por motivos que explico com dificuldade e na verdade nem eu bem entendo, tenho vontade de ir à Mauritânia.

É um país pobre e desolado que nasceu das areias do Sahara e que pelas mesmas areias é habitualmente coberto. Para a Mauritânia não há pacotes turísticos e até mesmo os backpackers tendem a olhá-lo com um distante sorriso de complacência. Na verdade, é extraordinariamente provável que ao longo da nossa vida, ninguém nos diga com um entusiasmado esfregar de mãos: “Amanhã, parto para a Mauritânia. Nunca mais chegava o dia!”

A Mauritânia tem um fado geográfico que pesa tanto como o seu terrível sol do meio-dia e que não faz suscitar grande fervores à sua visita. Entre fronteiras, pouco mais há que paisagens de interminável e poeirenta planura. Ao sair-se do país, tem-se a Norte os milhões de minas terrestres do Sahara Ocidental, a Nordeste a imprevisível Argélia e para Leste os bandidos que vigiam os postos fronteiriços com o Mali. Ou seja, lá dentro pouco há que fazer, mas sair pode não ser a melhor opção. Mesmo assim e tudo pesado, tenho vontade de ir à Mauritânia.

Habituei-me a pensar que um país com magros pontos de indiscutível interesse dá-nos sempre algo que os outros não têm. Aqui, porque tudo é árido, cada novo encontro tem um sincero empenho, um verdadeiro toque de vida. E de cada vez que vemos a tremeluzir aos 47 graus que aquecem o horizonte um qualquer volume (mesmo que coberto da ferrugem dos anos) podemos estar a cruzar-nos com uma lembrança para todo o sempre.

Apesar de ninguém saber muito da Mauritânia, há uma mão-cheia de pessoas que lhe conhece um feito particular: aqui corre o que é alegadamente o mais longo comboio em todo o mundo. Vai carregado de minério de ferro e as suas 4 locomotivas chegam a arrastar mais de duzentas carruagens até à cidade de Nouadibhou.

Em Nouadibhou, espere-se encontrar uma terra esquálida, com rumores de ser manipulada pela máfia nigeriana e aproveitada para campo de treino da Al-Quaida. É só a segunda maior cidade do país, mas já é capital no contrabando de meteoritos e um dos principais portos de embarque dos clandestinos que procuram as Canárias. Enfim, lá trafica-se em expectativas.

Contudo, se um dia chegar a NDB é para perguntar onde fica a baía. Alguém me há-de responder, estranhando o porquê de tão insólito destino. Ali só há areias manchadas e carcaças de metal ferrugentas. Mas é este puzzle em constante preenchimento o que mais me move até à Mauritânia. Porque é aqui que cerca de 300 embarcações se juntam num dos mais estranhos cemitérios de que há memória. Umas não resistiram aos humores do Atlântico, outras foram ali deixadas para morrer. Não é um ambiente de cor e alegria. Mas os cemitérios são assim mesmo.

Imagens de TAFAT e Google Maps

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domingo, agosto 26, 2007

O Grande Branco

Há quatro anos e meio que já conheço preços, itinerários e rotinas. Não é difícil: por 115 €, o histórico Brian McFarlane empresta-nos uma jaula e larga-nos nas águas quentes de Gansbaai.

Depois, é esperar que o engodo o atraia para junto do Predator II e assistir gelado aquele olhar de morte que nos rodeia uma, duas, muitas vezes.

E sempre que me voltam a reavivar a ideia (agora a culpa foi da Forbes Traveler), cá fico eu a pensar que já faltou mais tempo para descer.

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sexta-feira, maio 26, 2006

Kkkkkrruk-uuu-u-u (Moremi, 2003.04.27)

Tivesse eu que nomear uma coisa - uma só - que me recordasse com prazer dos dias no mato e ela seria o mais improvável dos meus prognósticos iniciais.

Elas também cantam por cá, mas é lá que a voz rouca das rolas mais enche as tardes. Cada uma com o seu canto, todas elas a maior das saudades de África.

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quarta-feira, maio 24, 2006

Por Xakanaxa (Moremi, 2003.04.27)

Era hora de sesta no acampamento de Xakanaxa. Como de costume, só eu me mantinha acordado. Sempre achara um desperdício entregar duas horas ao sono, quando a selva fervilhava em meu redor. Ainda que o guia tivesse dado instruções para não abandonarmos a clareira e até a insuspeita Lonely Planet confirmar o perigo: “Watch out for wildlife in Xakanaxa: one reader was chased by elephants in 1999 and an American boy was tragically killed by hyenas here in 2000”.

Assim, subi para a cabina do camião e deixei-me lá a ler um livro sobre os répteis do Okavango. Pus os pés no tablier e, enquanto a sombra enchia Xakanaxa, vi-me como o único convidado das melodias dos pássaros. Aliás, só sairia dali para visitar Douglas, o nosso WC.

Habitualmente, o Douglas ficava a uns cinquenta metros do acampamento, escondido atrás de uma árvore. Em Xakanaxa, estava um pouco mais longe, forçando-nos a uma caminhada por um bosque de acácias novas. Apenas alguns passos me separavam da árvore quando senti um movimento. Olhei para o meu lado direito e vi-o a fitar-me. Era um leopardo.

Ocorreu-me que devia parar. Então, fiquei a contem- plá-lo. Apenas. A menos de dez metros de mim, ele permanecia estático. Até que decidiu agir. E, curvando sobre si mesmo, fez meia-volta para o bosque. Não tinham passado mais que cinco segundos.

Mudo e estático, ali fiquei por mais um minuto, tentando perceber o que fazer a seguir. Passou-me pela cabeça que os leopardos costumam subir às árvores. Olhei para cima. Por outro lado, ele podia estar a rodear-me. Olhei para baixo e pus-me a tentar ouvir se abria caminho junto às folhagens dos arbustos. Então, sem nada ver nem ouvir, comecei vagarosamente a andar de lado, até chegar ao acampamento ainda adormecido. Entrei de novo no camião e voltei a pegar no livro. A cada parágrafo, olhava pelo retrovisor para o canto da clareira. Mas, estranhamente, nunca foi medo o que senti. Tudo tinha sido demasiadamente rápido e paralisante para poder sentir qualquer coisa.

Sentir o medo terrível, o pânico descontrolado, tinha sido na noite anterior. Era a primeira noite no famigerado Xakanaxa e a fogueira ia perdendo fulgor. Já pouco se falava e os olhares fixavam-se hipnoticamente nas chamas, antecipando a entrada nas tendas. Então, vindo da escuridão, tão alto como um comboio a aliviar vapor, aquele ruído cruzou os ares. Não era um grito nem um rugido, era mais como um gigante a fungar junto às nossas cabeças. Os gritos vieram depois: eram as raparigas do grupo, transidas de medo. Eu não gritei. Saltei da cadeira de lona, quis fugir para longe e acabei no abraço apavorado da Fátima e da brasileira Sybille. Já o medo foi o mais fisicamente intenso que alguma vez sentira. Mesmo não passando de um dos menos interessantes capítulos da história de Xakanaxa.

Gys, o guia, dormia todas as noites em cima do atrelado do Mercedes. Pela manhã, interpelei-o enquanto ele fazia o pequeno-almoço. “Yes, I heard”, respondeu ao dobrar-se para apanhar uma lata de cacau instantâneo, “it was an impala. They do those noises when they are afraid of something”. Fiz um sorriso amarelo e desviei-me. Afinal, o terror de Xakanaxa não era senão o mais assustadiço dos mamíferos da selva.

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terça-feira, maio 23, 2006

Em morte lenta (Moremi, 2003.04.26)

Reforçados de mantimentos e expectativas, entrámos em Moremi. Chegavam os grandes parques e as caminhadas pelo mato ficavam carimbadas como proibidas. Agora, só mesmo empoleirados no camião Mercedes. Era tempo de game drive.

Pelos trilhos de terra batida, íamos cruzando vagarosamente as vidas das impalas, zebras e girafas que apenas tínhamos espreitado fugazmente nos game walks. Mesmo devagar, um quarto de hora bastava-nos para termos mais encontros que em três horas a pé pela savana. Imersos naquela babel, a confissão de Gys deixou-nos por isso intrigados: “I never saw a killing”.

Uma hora no sofá com as corridas e os rugidos do National Geographic eram o suficiente para uma única chita abater quatro impalas. No entanto, em quase vinte anos de Krugers, Serengetis e Okavangos, o nosso guia nunca assistira à corrida, ao salto e ao epílogo de uma perseguição bem sucedida. Era na selva que ele fazia a vida, mas a morte só a vira passar na TV. Talvez fossem as manias do destino.

Então, ele apontou para o longe: “Some- thing is happe- ning there”. No chão, uma enorme mancha preta balouçava sem que percebêssemos porquê. Era como se um estranho vento estivesse a impor a sua força sobre um corpo inerte. Uma dezena de metros à frente, já Gys descodificava a cena: “Four lions. They killed a buffalo”.

No meio da erva seca, o tom alperce das suas peles era a camuflagem perfeita. Dois dos leões vigiavam os oportunistas que se tinham juntado (algumas hienas e uma multidão de abutres) e outros dois alimentavam-se das entranhas do búfalo, manipulando a carcaça de meia tonelada sem esforço aparente. Debruçados no Mercedes, perdemo-nos no tempo. O sol começava a descer no horizonte e, mais uma vez, Gys tinha chegado no meio de uma refeição.

Regressá- mos pela manhã para encontrar quase tudo na mesma. Só mesmo o búfalo estava a caminho de ser uma massa disforme, onde apenas as ossadas mantinham a forma do que ele já tinha sido. Um leão espreguiçava-se rolando sobre o dorso, outro bocejava sonoramente. Os outros dois não tinham perdido o apetite, para teste da paciência dos abutres. Dessa vez, ficámos menos tempo. Mas voltaríamos ao fim da tarde, para deparar com a mais extraordinária cena de toda a viagem.

Nessa altura, os quatro leões mantin- ham-se por ali, rasgando os últimos músculos da sua presa. Os abutres tinham duplicado em número e já partilhavam os ramos de uma árvore morta com alguns marabus. Estranhamente, não se viam hienas, mas entretanto tinham aparecido dois crocodilos. Sentia-se no ar que a refeição dos leões não demoraria muito mais. Em breve, os necrófagos sentar-se-iam à mesa.

O Mercedes estava resguardado num bosque, parado à saída de uma curva da estrada de areia. E com o interesse a esbater-se, preparámo-nos para partir. Até que nos apercebemos de um súbito restolhar: eram os crocodilos a voltarem à água. E, junto a eles, um viajante solitário desmontava do capot do seu Defender e, atirando-se para trás do volante, gesticulou na nossa direcção apontando depois para o outro lado da curva. Nada conseguíamos ver, pois o arvoredo tapava a saída da curva. Mas, obviamente, algo se estava a passar.

Foi então que fomos autentica- mente colhidos por uma temível locomotiva de múscu- los e convicção. A cinco metros de nós, numa passada marcial, eles iam surgindo. Um… dois… três… quatro… sete… onze leões seguiam o trilho de areia que fazia as vezes de estrada e dirigiam-se para a peça de carne. Não tenho memória de mais colossal demonstração de força. Gys, que por ali já devia ter visto quase de tudo, esbugalhava os olhos: “The other lions are escaping. Never saw it. Never in my life…”. Enquanto os abutres esvoaçavam para todos os lados, os novos proprietários da carcaça mediam forças, rugindo e ameaçando-se entre si. O que restava do búfalo era escasso para tanta vontade. Rapidamente o submergiram, rasgando com os dentes os magros despojos de um dia de banquete.

Ao longe, os quatro leões fugitivos assistiam impassíveis. Junto a nós, Gys estava em estado de êxtase. Não fora para hoje a morte ao vivo. Mas o espectáculo da morte pode ser uma longa transmissão em diferido.

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quinta-feira, maio 18, 2006

O evitável cozinheiro (Maun, 2003.04.25)

Nunca saberei se por graça da providência, Ralph nunca cozinhou para nós.

Ele até era cozinheiro de profissão, tinha uns bem fornecidos cem quilos e um ar bonacheirão quando se ria com as suas próprias piadas. Ou seja, reunia os requisitos. Mas o facto de cozinhar para a tripulação maioritariamente filipina de um navio mercante não me inundava de confiança.

Ele estava ali como eu, em viagem. Por isso, até nem seria suposto que cozinhasse. Contudo, desde os primeiros dias que me arrepiava a ideia de poder vir a comer as suas receitas. É que, não encontro outra forma de o dizer, os intestinos do Ralph gaseavam-nos a cada dez minutos numa expulsão borbulhante. Quando andávamos pelo mato, era sempre mais provável que o cheiro fétido tivesse origem humana que animal. O que, atendendo às espécies vizinhas, não deixava de ser uma proeza.


Dias mais tarde, mergulhei numa lagoa e descobri um mexilhão. Com uma interjeição gutural só possível num alemão da Baviera, Ralph revirou as órbitas e propôs entusiasticamente cozinhá-los em molho inglês com tâmaras espremidas. Enojados, os nativos teimavam que mexilhões não eram comida; eu antecipava o vómito ao ver a mistela. Pelo sim pelo não, defen- di-me: “I dived and dived again. That is the only mussel on the lake”.

Numa manhã em Maun, fomos acordados por terríveis imprecações. Ralph, que tinha dormido ao relento, olhava para cima e, agitando o braço direito como um cutelo, invocava um raio que incinerasse todos os pássaros: “Dam birds from hell”. Quando chegámos junto a ele, o saco-cama azul estava semi-coberto de uma poça que, à primeira vista, era vómito. Percebi depois que era caca. Esbranquiçada e a meio caminho para se solidificar. E, descendo do sobrolho esquerdo até ao lábio superior, uma repugnante estalactite de fezes adornava-lhe o rosto vermelho de cólera. Em cima, empoleirado num ramo, um rolieiro-de-peito-lilás parecia trinar divertido ante os gritos da ocasional sanita.

Nesse mesmo dia, um exército de macacos entrou-nos no camião e nas mochilas, levando apenas as maçãs do Ralph: “Dam monkeys from hell”. Decididamente, o delta voltava-se contra o cozinheiro alemão, que, atirando torrões de terra, gritava: “I will roast you with your apples”. Ficou-se no entanto pela ameaça. Aliás, já o tinha dito, nunca cozinhou para nós.

Entre o gasoduto intoxicante e o experimentalista pantagruélico, Ralph não deixava de ser um homem de bom coração. É certo que parecia abusar dos molhos (tanto na flatulência como no fogão), mas era um tipo jovial. Há três semanas recebi um retrato do casamento. Ao seu lado para a vida, estava uma filipina lá do barco. Na boca, um sorriso que eu reconhecia. Estaria a cagar-se?

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quarta-feira, maio 17, 2006

Sete (Okavango, 2003.04.25)

No Norte da Escócia, um velho pescador rematara respeitosamente o nome de Eusébio quando falei do meu país; Rui Costa, il principino, era repetido com lágrimas nos olhos quando em Florença descobriam a minha nacionalidade; e, até num souk de Aswan, o futebol escancarara um sorriso desdentado: “Manuel José da Silva, manager of Al Ahly, the Great”.

Mas já um rotundo “Luís Figo!”, o nosso número sete, era disparo certeiro por todo o globo. Como se fosse um apelido do nome próprio Portugal. Na realidade, de tão frequente, a contra-resposta tornava-se esperada.

A surpresa viria de uma remota aldeia de palhotas perdida nos fundos do Botswana. Era uma terra sem electricidade ou água potável, talvez até sem nome. Mas tinha por lá o Sete.

Talvez até nem sentissem a falta da luz. É que havia um Sete a brilhar e um outro Sete sempre disposto a ajudar.

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terça-feira, maio 16, 2006

Chegaram os Leões (Okavango, 2003.04.24)

Na noite anterior, as hienas tinham andado pelo bosque que circundava o nosso acampamento. Primeiro, os ruídos pareciam da lenha a estalar na fogueira, mas subitamente o Gys apontou a lanterna para trás. E, nas sombras, todos vimos aqueles vultos corcundas a escaparem-se para o meio das árvores. Foi então que alguém perguntou: “Are they dangerous?”

“It depends”, disse o guia, alimentando a fogueira de mais lenha. Durante o dia, eram animais solitários, inofensivos e mesmo cobardes. Mas, quando ficava escuro, juntavam-se para caçar. E, nessa altura, eram evitadas por todos os animais da selva. Até pelos leões.

Olhei de novo para o bosque à minha frente. Nada se via mexer naquela indistinguível massa negra, mas o medo adivinhava-lhes a presença. Então, o Gys continuou. Uma das mais sangrentas histórias do delta com homens envolvidos tivera as hienas como protagonistas. Uma matilha entrara a meio da noite num acampamento e fora descoberta por uma criança de 9 anos. Em pânico, a criança saiu da sua tenda e tentara alcançar a tenda dos seus pais. Mas, com isso, desrespeitou a condição número 1 de uma pessoa na selva: “Never run. If you run, they think you are a prey. If you run, you are food.” Não conseguiu dar mais que alguns passos. Foi abatida por uma matilha de hienas esfomeadas. Só na manhã seguinte é que foi encontrada pela família em desespero. Mas pouco mais restava que as suas ossadas.

De um momento para o outro, sentia-se que a fogueira não aquecia o suficiente. Sentado num enorme tronco de árvore que tinha tombado, eu só esperava que aquele formigueiro na barriga não fosse o fermentar de uma cólica. Ou que qualquer outra necessidade não me obrigasse a fazer 30 metros no breu da noite até ao semi-escondido Douglas, apenas na incipiente companhia de uma lanterna.

Felizmente, nada aconteceu. Aliás, enquanto caminhávamos no primeiro game walk do dia, o sinistro relato da noite anterior não era mais que uma memória esbatida. A manhã estava muito quente e o nosso andamento era esforçado. De tão opressivo, o calor até escondia os animais. Desde que saíramos do acampamento, tínhamos já deixado para trás duas horas de marcha solitária, onde pouco mais ouvíamos que a nossa própria respiração. Ofegante, quase sufocada.

Então, o nosso guia quebrou o silêncio e apontou para longe para a copa de uma árvore. “It’s a killing”, virou-se ele para nós, indicando-nos os ramos cobertos de abutres. Virámos o rumo e seguimos naquela direcção. Estávamos exaustos, mas a expectativa fazia-nos andar mais rápido. E, durante um quarto de hora, aproximámo-nos cada vez mais da árvore. Mas, quando lá chegámos, não havia sinal de vida. Os abutres já não estavam por ali e, estranhamente, nenhum outro animal mitigava a sede na pequena lagoa que existia junto ao arvoredo. Até que a justificação saiu da boca do Gys, enquanto olhava para o chão: “Lions.” Naquele momento, senti o nosso guia invadido de um entusiasmo que ainda não se tinha revelado. E, num tom quase juvenil, acrescentou: “Let’s follow them.”

À frente ia o Gys e o nosso pisteiro, nativo do delta; pelo meio, quatro urbanos em passo titubeante; atrás, com o coração a cavalgar, eu fechava o grupo. Tentando manter a frieza, ia olhando à vez para o lado e para trás, não fossem decidir-se aparecer nas minhas costas. Mas foi junto à cabeça do grupo que se ouviu. Era um rugido terrível. E tal e qual o Gys dissera uns dias antes, sentimo-lo troar no nosso peito antes de chegar aos nossos ouvidos.

Num ápice, o grupo desmembrou-se. Uns agarravam-se aos outros, alguém gritou de terror e houve até quem corresse dois ou três passos até se lembrar da lição (“Never run”). À cabeça do pelotão, o pisteiro, africano e reincidente, mantinha-se estático. O nosso guia virou-se para nós e levantou as palmas das mãos, aconselhando calma. Eu tinha ficado parado ao soar do rugido. Gelara. Então, o Gys advertiu: “Remember, they might want to scare you. So, if they run in your direction, stay still.” Entreolhámo-nos. “Even if they are only two metres from you, stay still.” E concluiu: “Stay still and you stay alive.” Aos poucos, chegámo-nos adiante. E vimos os leões, à sombra de uma acácia.

Deviam ser dez ou doze. Não vi nenhuma juba, mas a maior parte eram adultos. Leoas ou jovens leões. E também algumas crias. Estavam a vinte metros de nós, refastelados e defendendo-se do sol. Um deles bocejou. Uma cria, do tamanho do meu tronco, decidiu exibir-se e rugiu na nossa direcção. Então, tão subitamente como ouvíramos o primeiro dos rugidos, internaram-se no bosque. Deixámos de os ver. Mas não de os sentir.

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quinta-feira, maio 11, 2006

Ke itumetse* (Okavango, 2003.04.24)


Vejo sempre África com olhos de gostar. Pode ser terra de sangue e fogo, mas sempre me desassossega quando sonho em revê-la. Basta despertar às 5 da manhã, sentir o ar frio no nariz e ver a noite a dar lugar ao sol. Apenas isso…

* “Obrigado“ na língua Setsuana.

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quarta-feira, maio 10, 2006

Entre a morte e a vida (Okavango, 2003.04.23)

- Queres ouvir?, perguntei.
- Sim, virou-se na cama.
- É sobre a viagem. Estás com muito sono?, insisti.
- Não, continuou monossilabicamente.
- Olha o que eles dizem: “A montagem dos acampamentos, assim como a carga e descarga dos veículos será realizada pelos membros do grupo”. Ouviste?
- Sim, arrastou a resposta.
- Tem mais: “Existem riscos e perigos que não estão incluídos numa viagem tradicional: esforço físico para o qual poderá não estar preparado; falta de apoio médico convencional devido a estar em regiões remotas; dificuldade de evacuação em caso de acidente”, disse, olhando de soslaio para lhe perceber a reacção. Ainda queres ir?
- Sim. Ainda quero ir, soprou meia a dormir. Mas tu dormes ou não?
- Ah, e olha aqui mais abaixo: “não espere encontrar o conforto e as condições de higiene a que está habituado; a alimentação está muitas vezes enquadrada com os hábitos e costumes locais, sendo impossível comer outra coisa…
- Zé, interrompeu, por favor, temos os dois que acordar cedo. Já percebi que vamos trabalhar, comer mal e lavar-nos de vez em quando. Mas amanhã falamos disso, ‘tá bem? Agora, por favor, acentuando estas palavras, apaga a luz.

Deitei-me. A Fátima não parecia muito preocupada com o desfile de dificuldades. Melhor ainda. Aconcheguei a almofada e pus-nos a pensar na savana africana. Tinha passado um par de minutos quando, do meio do quarto escuro, ela atirou a última pergunta da noite: Há por lá cobras?

Tentando mostrar convicção, respondi logo de seguida: Sobre cobras, nunca li nada. Felizmente, as luzes já estavam apagadas.

Um mês e 17 dias depois, fomos desper- tados às 5 da manhã. Tinha sido a primeira noite numa tenda em plena selva. Não fora fácil adormecer, pois os elefantes faziam-se ouvir do outro lado do rio. E lembro-me de duas vezes em que, no escuro, me ajoelhara no saco-cama para ver se as hienas andavam junto à fogueira. Eu próprio guardara os restos do jantar no atrelado do camião para evitar que elas rondassem a clareira. Mas era tão grande a excitação que o sono não conseguia impor-se de vez. Quando finalmente adormeci, uma voz chamou-me para o dia que começava a nascer. Íamos fazer o nosso primeiro game walk.

Um game walk é uma caminhada pelo mato sem rumo aparente e com o único objectivo de ver animais selvagens. Duas vezes por dia era hora de game walk: quando nascia o sol e quando ele se punha. Eram os momentos em que a maior parte dos animais saía para comer.

Na primeira manhã, andámos meia-hora sem dar com um sinal de vida. Até que, ao curvarmos um bosque de arbustos, vimos a morte à nossa frente. Era a carcaça de um elefante. “An old bull”, disse o nosso guia, após conferir com o pisteiro. “It died a week ago”.

O Gys, de nome Gysbert e pronúncia Raïss, tinha apenas 23 anos. No entanto, chegara à selva aos cinco. Sabia por isso a sua linguagem. Vira numa pilha de ossos a idade do elefante (pois as presas já estavam gastas), apercebera-se do seu sexo (pela envergadura das ossadas) e sabia-lhe a data da morte (pela decomposição da pele ali ao lado). Há seis anos que levava expedições de ignorância por entre os perigos da savana. E, há talvez seis anos, respondia “Ach, it is a safari myth…” quando perguntavam por cemitérios de elefantes. Mas, sobretudo, ensinava o respeito e a consciência como lições de sobrevivência na selva.

Nós seguíamos-lhe cada pegada como se disso dependesse a nossa vida. Por isso, estacámos bruscamente quando o vimos parar, dobrar-se ligeiramente e abrir o braço direito. Algo andava por ali. Entre o receio e a curiosidade, lembro-me de procurar com os olhos de um lado para o outro. Então, a resposta apareceu, camuflada no capim a 3 ou 4 metros de nós. Era uma pitão.

Três metros de pele luzidia e potência muscular. Enfim, o abraço mortal que todos temiam. Por cima do meu ombro, a Fátima arregalava os olhos. Afinal, ali havia cobras. Nunca me tinha parecido importante dizer-lhe que o Delta do Okavango tinha mais de 70 espécies de serpentes. E, sobretudo, que algumas delas se contavam entre as mais venenosas do mundo. Mas, logo ao primeiro game walk, ali estavam elas.

“Just give her room to go”, ouviu-se, enquanto nós contemplávamos em quase hipnose os seus profundos olhos negros e a língua bifendida que entrava e saía da boca. Progressivamente, a admiração pelo esplêndido animal ia substituindo o medo. Até que ela decidiu regressar ao seu tufo de erva seca. E, com o movimento de um chicote, ondulou vigorosamente das nossas vidas para fora.

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terça-feira, maio 09, 2006

Mordido (Rio Okavango, 2003.04.22)

Logo na primeira noite em África, vi um Rabo de Crocodilo. Custava 59 rands sul-africanos e estava na folha plastificada de um menu, acompanhado de arroz, alface, cebolas e fruta-da-pimenta. “No. It is not good”, tinha aconselhado o empregado.

À quarta noite, o repetido uivar de um chacal amedrontara o nosso sono ao relento em Makgadikgadi. E ao quinto dia, ainda consegui espreitar os estorninhos-de-Burchell e os rolieiros-de-peito-lilás (não há erro no nome) entre os ramos das árvores junto ao Boteti. Mas os animais de documentário, esses ainda não andavam por ali.

Até que, ao sexto dia, abastecemos de víveres frescos e entrámos no Delta do Okavango. Chegara finalmente o território dos grandes e, com ele, a temporada dos banhos bissemanais. Estávamos no Mato.

O Okavango nasce em Angola e capricha em nunca se encontrar com o mar. Aproveita antes a época das cheias para se espreguiçar numa área de 16.000 quilómetros quadrados. Só que, por enquanto, era ainda tempo para os pântanos e os canais serem sulcados pelo mokoro, uma embarcação baixa e de um só corpo talhada de um tronco de árvore.

À nossa espera estavam três mokoros e três indígenas com varas. África também tem gôndolas, mas aqui ninguém canta pelo caminho. Ao contrário, o nosso poler nunca abriu o rosto e só falou quando lhe perguntei sobre a cicatriz desenhada no ombro. “HIV/AIDS”, atirou com secura.

Não fiquei admirado. Afinal, o Botswana tinha mais de um terço da população infectada. Fiquei só a pensar na dura justiça de um povo que estigmatiza com uma lâmina aqueles que carregam a peste. Logo nessa noite, também as minhas convicções seriam postas à prova. Ele não era só poler ou pisteiro. Era também o nosso cozinheiro. Nesses momentos, todo o grupo já sabia porque é que aquele rosto nunca sorria. Mas ele já tinha sido suficientemente marcado. Por isso, nunca ninguém se desviou de um prato. Ou poupou um sorriso.

Entretanto, com o Okavango a baixar até ao palmo de altura, tivemos que seguir a vau. Com 5 ou 6 metros a separar as margens, pensámos em crocodilos e hipopótamos. Mas eram os babuínos quem andavam por ali. Eram dezenas e levantavam os traseiros escarlates evitando a terra que ainda fumegava de incêndio recente. Então a água voltou a subir e voltámos aos mokoros.

Mas, agora, eram as margens que vinham ao meu encontro. As folhas de papiro começavam a tocar-me nos braços, deixando cair ocasionalmente uma ou outra formiga que ali tinha feito corredor. Quando se segue no barco da frente, têm-se habitualmente o melhor ângulo de visão. Mas, neste momento, o meu tronco já ajudava a proa do mokoro a abrir caminho entre a folhagem cada vez mais junta.

Por fim, já mal se conseguia distinguir a distância entre as margens. Tive que juntar a cabeça aos joelhos para que o papiro não me cortasse o rosto. Mas eu era agora o apeadeiro ocasional para todo o tipo de insectos rastejantes. Aranhiços, pequenas centopeias e formigas vermelhas subiam-me pelos braços e passavam-me para dentro da t-shirt. Atrás de mim, a Fátima (também ela a ser açoitada pelas folhas) afastava os aranhiços que me desciam para dentro dos calções, enquanto eu esbracejava, tentando matar tudo o que me ia mordendo. No fundo do mokoro, iam caíndo formigas decepadas. As suas cabeças, mesmo sem o resto do corpo, continuavam presas à pele dos meus braços, como se fossem buscar uma última energia na morte. Eram só cabeça, mas eu ainda sentia as suas mandíbulas como se fossem alfinetes.

Após alguns minutos a ser mordido, o rio abriu numa pequena lagoa. Num impulso, atirei-me à água e esfreguei o formigueiro do meu corpo. Só viria a pensar que há crocodilos no Okavango uma hora depois, quando um balde pendurado no ramo de uma árvore se entornou sobre mim e levou os últimos cadáveres daquele famigerado exército vermelho.

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sexta-feira, maio 05, 2006

Souflé de hiena (Maun, 2003.04.21)

Tenho estudos.

Falo e percebo línguas.

E leio com regularidade.

Bem visto, acho-me um tipo estruturado. Mas aqueles 3 segundos junto ao Rio Boteti demonstraram que há sempre caminho para um pensamento de alarve e extraordinária estupidez.

Naquele momento, enquanto os cavalos trotavam e as vacas pastavam no leito seco do rio, o ocasional imbecil brilhou intensamente e apenas pôs em causa toda a dieta alimentar de um continente: “Olha, também há bichos destes em África?!”

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quinta-feira, maio 04, 2006

Douglas & Digmore (Makgadikgadi, 2003.04.20)

A primeira vez que ouvi falar do Douglas foi num jantar em Nata. As vozes surgiam em fundo, mas lembro-me distintamente do respeito com que se falava daquele nome. "Douglas really save the day", cheguei a aperceber-me.

Mas só à segunda é que fiquei realmente intrigado. "I was looking for Douglas in the middle of the night, but I couldn’t find it. It was sheer panic", dizia um homem de barba rala e corpulenta meia-idade.

Afinal, quem seria aquele Douglas? Um guia veterano que caçara com Hemingway? Um pisteiro capaz de sussurrar ao ouvido de um búfalo? Os meus pensamentos ondulavam, mas nunca se afastavam muito da figura de Robert Redford em “África Minha”.

Finalmente, ao fim do terceiro dia, conheci o Douglas e o seu parceiro Digmore. E tudo me pareceu mais iluminado e coerente. Realmente, o Douglas era um poço de vitalidade que atendia a todas as nossas necessidades.

Sempre que montávamos acampamento, o nosso guia afastava-se com uma pá e com um banco desmontável. Pouco depois, regressava e enterrava a pá no limite da clareira onde as tendas estavam dispostas. Pegava numa caixa de fósforos, enfiava-a no oco de um rolo de papel higiénico e colocava os dois no punho da pá. Para trás, a uns 30 ou 40 metros do acampamento, Gys tinha escavado um buraco no chão. Por cima, ficava um banco com um círculo cortado no tampo. Era para as nossas precisões. Era o nosso WC, que um dia alguém garbosamente baptizara de Douglas.

Quando visitá- vamos o Douglas, levávamos connosco a pá Digmore. Assim se sabia se alguém estava a ocupar o Douglas: bastava Digmore não estar no seu sítio. No fim do diálogo, utilizava-se o papel higiénico da forma que as sociedades civilizadas preconizaram, acendia-se um fósforo e deixava-se tudo a arder no buraco. Mais uma vez, Douglas e Digmore, qual Batman e Robin, tinham salvo o dia.

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quarta-feira, maio 03, 2006

Os chacais do Nada (Makgadikgadi, 2003.04.20)

"- Two years ago, this was a lake with hundreds of flamingoes", disse o guia.

Custava a crer. Aquilo era o Nada absoluto. Aquilo não podia estar vivo há meros dois anos.

Para onde quer que nos virássemos, o salar de Sowa fracassava em surpreender. Não havia um ressalto que fosse no horizonte e a alva monotonia só era interrompida aqui e ali por uns tufos de erva, amarelados de morte.

Podia ter sido um lago de flamingos, mas hoje já nada cruzava o céu. Nem uma única ave, nem um grito solitário. O ruído era um exclusivo nosso, ao chocarmos os ferros que montavam as tendas ou a arrastarmos os pés na quebradiça película de sal e feldspato.

E, contudo, tudo aquilo era magnífico.

Em Makgadikgadi, no salar de Sowa, descobre-se que o silêncio, quando nos rodeia na sua expressão mais profunda, ganha vida. E não deixa espaço para mais nada, senão a mais solene paz de espírito. Sentado no chão, enquanto o sol se punha em África, converti-me ao vazio completo. E percebi que há momentos em que o nada é o mais próximo que existe de sentir tudo.

Quando a noite caiu, surgiu a ideia: aquele era o sítio ideal para uma noite ao relento. "Just don’t let the fire go", advertiu Gys, o guia sul-africano. Para quem nada sabia daquelas terras, foi o suficiente para espalharmos os sacos-cama em redor da fogueira.

Só que o silêncio é algo que nunca existe na noite de África. E, vindo do nada, um uivo cortou a escuridão, gelando-nos de medo. "Put more wood on the fire", ouviu-se de cima do camião. Pus quase toda a lenha que por ali havia, mas pouco mais consegui que um novo uivo, mais longo e soluçado. "It’s only a jackal."

Apenas um chacal, dizia ele. Naquele momento pensei o quanto da nossa vida se pode pôr nas mãos de um desconhe- cido. Mas, também, aquilo era a vida dele, era o que ele fazia. Instintivamente, sosseguei. E o chacal uivou apenas mais uma vez. E mais distante, algures no meio do Nada.

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sexta-feira, abril 28, 2006

Safari – Dia 1 (Joanesburgo, 2003.04.18)

Quando ali entrei, tinha o reencontro com o Sahara na cabeça. Seriam quinze dias a atravessar a Líbia no dorso de um camelo. Seriam duas semanas de uma só rotina, em que o horizonte se repetiria no topo de cada duna. E, sobretudo, seria o cru silêncio a testar os limites de quem não era talhado para aquela vida do deserto. Seria a revelação de uma vida.

Só que naquele dia, dei de caras com o inesperado. E quando dali saí, o meu destino mexera-se no mapa. O desconhecido ainda ali estava e até o continente se mantinha, mas a linha do Equador passara para norte. Agora, era o Botswana que me esperava. E o deserto fazia-se selva.

Confesso que no dia em que aterrei em Joanesburgo, ainda me sentia ultrapassado pelo volte-face. Acho que ele se chamava Miguel, mas não tenho a certeza. Sei que me falou do Delta do Okavango com o maior entusiasmo com que se pode falar a um desconhecido. E sei que lhe bastara meia hora de discurso arrebatado para me fazer largar as areias para outros quaisquer quinze dias. Agora, já cá estávamos, a Fátima e eu, numa das mais perigosas cidades do mundo.

De Jo’Burg pouco se viu. Encontrei muros com 6 metros de altura guarnecidos com arame farpado e painéis de “Armed Response” ou “Watch Dog in Patrol”; assisti a sanguinolentos noticiários de TV; e ouvi alertas a dissuadirem-me de ir até ao centro da cidade ou aos subúrbios ou às townships.

Tudo isto me intrigou. O que é feito dos sonhos de Biko e Mandela? E onde é que ficou a lição de humanidade da Truth & Reconciliation Comission? Porque é que esta nova África do Sul confina a minha segurança a uma cerca electrificada? Acabei por adormecer a pensar neste filme a preto e branco.

Seria a última noite num colchão decente durante um par de semanas. Na madrugada seguinte, teríamos pela frente onze modorrentas horas embaladas pelo matraquear de um motor de camião.

Ao princípio da tarde, já tinha um carimbo do Botswana no passaporte. Safari.

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quinta-feira, abril 13, 2006

À saída do nevoeiro (Tanger, 2003.03.04)

A superstição e os talismãs são proibidos pelo Corão. Mas os muçulmanos do Magrebe parecem acreditar que toda a sorte nunca é demais. E assim, a cada porta, recebem-nos sob o auspício da “Mão de Fatima”.

E, depois da perseguição da véspera e do atropelamento da manhã, também nós acolhemos com agrado a companhia de uma Hamsa. Veio da Jemaa el Fna, a praça maior de Marrakesh. Podíamos ter comprado uns dentes humanos ou um unguento para as dores de intestinos (também por lá haviam). Mas de uma praça que em português se traduz para “Assembleia dos Mortos”, pensou-se que trazer um amuleto não prejudicaria. Afinal, até ao ferry de Tanger, ainda estavam por fazer 660 quilómetros.

A minha fatia particular de boa fortuna não demoraria a chegar. É que, pela primeira vez em Marrocos, comi e gostei. Não de uma tagine ou de uns couscous, mas de um gorduroso cheeseburger. Alcatifou-me o estômago e estimulou-me o ânimo. Entrei no jipe a resfolegar: “Vamo’ lá embora”.

O último barco para a Europa saía às 10 da noite, mas o alcatrão macio da auto-estrada estava à nossa espera em Casablanca. Ainda tínhamos que vencer os engarrafamentos da cidade e desviar dos camiões TIR que ultrapassam pela direita fora do traço exterior da estrada. Mas, quando a noite caiu, ela chegou: a N1.

O que nunca poderíamos esperar, nem nos nossos mais loucos pesadelos, era encontrar ali a mais difícil condução dos últimos dias. Ali, não estava um tapete de alcatrão. A Casablanca-Asilah deixara de ser uma auto-estrada e era agora uma sombra negra com 10 metros de comprimento. Ou seja, aqueles que o nevoeiro me deixava ver.

Durante uma centena e tal de quilómetros, pouco mudou. O sopro branco do Atlântico continuava a afrouxar o nosso ritmo e a acelerar os nossos nervos. E, no tablier, o relógio parecia andar mais rápido que nunca. Nos bancos de trás, rezava-se. Rezava-se mesmo. Mas não propriamente para chegarmos ao barco a tempo. Agora já era para chegarmos em segurança. Pensando bem, quando estamos num carro que agora já entrava a 120 à hora no denso nevoeiro, não deve haver lugar mais nervoso que o banco de trás.

Quando chegámos a Asilah, o ferry estava a 45 quilómetros e a 40 minutos. O nevoeiro ia já ficando para trás e, com a visibilidade, entrou o optimismo. Devia dar. Se nada mais corresse mal, ainda hoje cruzávamos o Estreito de Gibraltar. Foi então que, já com a cabina da portagem à vista, eles apareceram: era a Polícia.

Enquanto parava, pensei: “Excesso de velocidade. Apanharam-me em excesso de velocidade.” Eram jovens, o que num polícia de trânsito pode ser um excelente ou um terrível sinal. Tanto podiam ser compreensivos e despedir-nos com um ralhete como reter-nos ali enquanto passavam vagarosa e zelosamente a sagrada multa. Mas, não. Não eram um nem outro. Aliás, nem sequer eram dois escroques a querer fazer render o turno da noite.

Eram simplesmente dois sujeitos cruéis, vindos da lodacenta boca de esgoto da condição humana. Dois nojentos que optaram por nos deixar à conversa durante um quarto de hora, sem avançarem com uma acusação nem pedirem quaisquer documentos. Duas pústulas infectadas que, à vista do meu desânimo e no minuto em que a âncora devia estar a subir, deram-nos ordem de seguida. Afinal, concluíram com a candura possível em dejectos daquela espécie, “só ainda não seguiram caminho porque não quiseram.”

Na alvorada seguinte, após uma noite num qualquer hotel de estrada e algures no Km 2.740 da viagem, entrámos no maldito ferry com a disposição de uma ferrujenta máquina a vapor. A “Mão de Fatima”, essa, anda ainda lá por casa, para aí no fundo de uma gaveta.

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terça-feira, abril 11, 2006

O atropelamento (Marrakesh, 2003.03.04)

A Terça-Feira de Carnaval amanhecera gloriosa. O céu não dava hipótese às nuvens e o vidro do jipe até aumentava os 24 graus lá de fora. Em suma, era dia de t-shirt.

Ao volante, eu estava com uma disposição de assobio. Aliás, ninguém ali acusava o facto de ser o último dia em Marrocos. Não era bom estarmos ainda a 140 quilómetros de Marrakesh, quando já nos devíamos preparar para sair de lá. Mas, depois recuperava-se, pensei.

A rodar pela estrada do Atlas, com as suas faces enrugadas e as farripas de neves eternas à vista, era preciso mais que um atraso para trazer o mau humor para dentro do Freelander. Mal sabia eu que, algumas curvas adiante, me esperava o pior momento de toda a viagem.

Ao longe, sete ou oito crianças brincavam na berma da estrada. Decidimos logo que iam ficar ali os nossos últimos rebuçados de mentol. Primeiro, a maior indiferença; quando a primeira arriscou, gerou-se o entusiasmo; e, num ápice, deflagrou a batalha campal. Em dois minutos, as crianças desgrenhavam-se, esgravatavam o chão e chocavam de cabeça contra as portas do carro. Lutavam por rebuçados de mentol. Era demais para mim.

Nunca me sentira tão arrependido de interfe- rir na vida de gente que me é estranha. Pedi ao Pedro para fechar a janela e, por duas ou três vezes, pisei com força no acelerador, tentando que o troar do motor as separasse. Umas pararam, mas outras somente se afastaram. Então, decidi deixar aquele horrível cenário.

Mas, passados uns duzentos metros, fiz inversão de marcha. Afinal, eu tinha criado a confusão. Não podia simplesmente ir embora. Quando cheguei junto a elas, já ninguém rebolava pelo chão. Agora, todas se juntavam num círculo. Saí do jipe e aproximei-me. No meio, uma rapariga com oito ou nove anos choramingava. Olhei para baixo e vi-lhe o pé. Torcido. Partido.

E eu era o responsável. Tinha-a atropelado. Ninguém parte o pé a lutar com raparigas da mesma idade. Tentei falar com ela, mas não sabia francês. Ninguém ali falava francês. Há quilómetros que eu não via uma casa ou algo que pudesse ter um telefone. Nervosamente, eu repetia “hospital, hospital”. Mas nada, ninguém percebia nada.

Pensei em regressar ao jipe e procurar um telefone. Isso, ia fazer isso. Mas, antes de sair dali, num gesto que ainda hoje não percebo se me choca, peguei na mão dela e fechei-a num rolo de dirhams. Não sei quantos. Provavelmente, mais do que o suficiente para sustentar uma pobre família do Atlas e toda a sua prole durante um ou dois meses. Não era para comprar a minha redenção. Queria… sei lá o quê. Passei-lhe a mão pelo cabelo e voltei ao carro. Tinha que arranjar forma de telefonar.

Andei, andei e nada. Não se via uma merda de um restaurante de estrada. Foi então que, separadas por cinco minutos, cruzaram-se connosco duas ambulâncias. Mesmo que não tivessem sido chamadas para a menina, iam passar por ela. Naquela estrada, não havia forma de não passarem por ela.

Uma hora à frente, estava Marrakesh. Chamam- -lhe a “Pérola do Sul” ou a “Cidade Rosa”. Para mim, significou quatro horas de uma terra que não vi como gostaria e que não senti como queria. Não havia forma de recuperar aquela disposição da manhã.

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sexta-feira, abril 07, 2006

Na retrete (Ouarzazate, 2003.03.04)

Nós andávamos à procura. Ele apenas andava por ali. Era um professor universitário francês que até falava português. E apontou-nos o Es-Salam porque não era caro nem mau.

Sei que fizeram tombar sobre o homem as mais terríveis maldições, mas é chegada a hora de o dizer: a 3 contos o quarto, as torneiras não têm banho de ouro. E até são admissíveis as toalhas rasgadas e o papel higiénico que não aparece. Nesses momentos, tem é que se pensar que há pior. E passo a transcrever com uma pronunciada vénia pela aromática lição de vida:

"Uma das casas de banho estava espectacularmente entupida: a única que restava era utilizável, mas não convidativa. Como quase todas as casas de banho egípcias, a retrete estava equipada com um pequeno cano (não muito diferente do bocal de um fagote) que esguichava água para cima para abluções íntimas. O cano tinha uma orla de excrementos de uma pessoa qualquer. (…) Em criança, a minha primeira visão de uma casa de banho de buraco no chão foi em França (…); mais tarde, a minha aculturação iemenita ficou completa quando renunciei ao papel higiénico.

E [tenho] algumas recordações menos felizes: aquela vez em que os meus óculos, lubrificados pelo suor, me escorregaram do nariz para um buraco malcheiroso perto do Mar Vermelho, e o horror, o horror de um cagatório público nos arredores de Simferopol."

Porque, na realidade, quando é chegada a hora, há é que senti-la com prazer. E sigo em respeitosa homenagem:

"Tenho muitas recordações agradáveis de defecar em lugares distantes: num alpendre sem porta com vista para o Estreito de Harris, cravejado de ilhas; no baluarte de um castelo iemenita situado sobre um penhasco alcantilado, com o vento a soprar por ele acima; fustigado pela espuma das ondas na popa de um
sambuq ao largo das ilhas de Kuria Muria; dentro do guarda-fatos de uma mansão otomana em Safran Bolu."

Fecho com um puxão de autoclismo: quem não quiser, que se encolha.

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quinta-feira, abril 06, 2006

Thriller em Mollywood (Aït Benhaddou, 2003.03.03)

Quando tinha um bom punhado de quilómetros pela frente, decidi levar a estrada de Er Rachidia para Ouarzazate na descontração; quando tinha mesmo que ganhar tempo, fui aliviado de 400 dirhams por excesso de velocidade. Em suma, fruto das minhas ponderadas opções, acabei por chegar a Aït Benhaddou eram já 6 e 10 da tarde.

Faça-se justiça, é por esta hora que o ksar ganha mais encanto. Só por aqui andam os que cá vivem e o sol decide vir corar o ocre destas paredes de adobe. Às 6 e 10 da tarde, quem é estrangeiro sente-se mais estrangeiro. E acolhe o convite de coração aberto.

Já não me lembro do nome dele. Lembro-me que era tuaregue e que dizia que tinha sido figurante no “Gladiador”. Ali mesmo em Aït Benhaddou, por onde também andaram as câmaras que filmaram “Lawrence da Arábia” e a “Jóia do Nilo”. Era um homem alto, garboso, com barba rala e figura de chefe de clã.

Era também um compêndio de negociação. Falava baixo mas com firmeza. A sua loja tinha aquela camada de pó que nos fazia pensar em autenticidade. E mesmo que ali houvesse um tapete ou uma espada feita por chineses, o fumo das chávenas de chá levavam-nos para tempos antigos.

Durante uma hora e tal, tentei que o meu francês à Bolöni com entoação à Chirac lhe fizesse ver que havia um limite para o que eu podia gastar. Mas, entre as minhas simulações de retirada (porque era muito o que ele pedia), os seus lamentos por uma família grande a sustentar (porque era pouco o que eu oferecia) e um incontável número de sentidos abraços (porque a nossa amizade não estava em causa), acabei por trazer um fantástico tapete e um pilão de almofariz que ainda hoje me apaixona.

No fim, paguei muito menos do que ele pedia. Mas talvez tenha pago mais do que era o preço. Certo é que com o nosso acordo tinha também chegado a noite escura. E numa terra feita de terra, água e palha, não se pode esperar mais luz na rua do que o luar e os pequenos candeeiros em cada casa.

Só olhos treinados nos conseguiriam encontrar o caminho de volta. Não os nossos, certamente. Acompanhámos o último abraço com os bons augúrios com que os amigos se despedem (“Que o Profeta guie os teus passos na estrada da vida”) e seguimos atrás do jovem empregado do tuaregue.

Um vendedor já embriagado insistiu para que lhe comprássemos um tapete. “Não tenho mais dinheiro” e acelerei o passo. Mais à frente, o miúdo descia de pedra em pedra, com a Fátima, o meu irmão e a namorada a esforçarem-se para o acompanhar. Era como se tivéssemos os olhos fechados. Não víamos mais que dois metros adiante, mas não podíamos perder o nosso guia na sua gincana entre as mais estreitas ruelas. Ou seja, íamos mais rápido do que era aconselhável, fazendo daquela descida uma atabalhoada escorregadela no escuro.

Até que começaram os gritos. Primeiro ao longe, depois cada vez mais perto. Traziam lanternas e davam ar de seguir exactamente o nosso caminho. E foi quando chegámos à margem do rio, que percebemos que ali éramos a presa. Eram dois e o modo como agitavam os braços acabou com as dúvidas. Pior, galgavam aquele terreno pedregoso com uma incrível agilidade. De tal modo que, quando terminámos a assustada travessia do rio, já apenas um par de metros nos separava deles.

Finalmente, alcançaram-nos. E agarraram o miúdo pela camisola, enquanto lhe gritavam com violência. Os nossos olhos estavam mais habituados ao escuro, mas não o suficiente para percebemos o que se ia passar. Então, enquanto eu agarrava o meu canivete, o Pedro aproximou-se deles e, do alto do metro e oitenta e tal, disparou forte em português: “O que é que se passa aqui?”

Talvez eles não estivessem à espera. Talvez pudessem esperar para resolver o seu problema. A verdade é que tudo ficou por ali, num feliz anti-clímax. Ainda deu para vê-los atravessar o rio. Ainda deu para ouvir as suas vozes a troar. Para mais não deu: estávamos já em trote rápido dali para fora, ainda a tremer com o susto de uma vida. Vá, com o susto de uma viagem.

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