Da Estação de Chelas ao Túnel da Bruxa
Aos 9 anos fui pela primeira vez ao Túnel da Bruxa. Eu mais o Malheiro, que tinha um tique em que piscava os olhos e acolchoava duas vezes seguidas a base da genitália. Dizia-se na altura que o túnel era lugar de segredos e que vivia lá um drogado. Naquele dia não chegámos a entrar, mas trouxe comigo umas mãos-cheias de caricas estrangeiras que estavam ali atiradas para o pé da linha. Nem sequer vimos nenhum comboio a sair ou entrar, mas ao chegar à Praceta dissemos que lá tínhamos ido. Questões de virilidade, entenda-se.
Um par de anos mais tarde, acabei por lá voltar. Agora, o troço de linha entre a Estação de Chelas e o Túnel da Bruxa já era feudo para quatro putos que teimavam em querer tropeçar numa aventura. O Bibita tinha mais um ano que o resto de nós e já tinha um penteado à futurista, atributos mais que suficientes para autenticar um líder nos recém-chegados Anos 80; o Jaime e eu andávamos juntos na preparatória (ainda andamos, não é, irmão?); e o Brux, mais adiposo e menos afoito, mas com um humor que antecipava a época.
Naquelas tardes de Verão, já não se viam caricas junto ao Túnel da Bruxa. Mas chegámos a ver o Drogado. Só que o medo tinha já sido trocado por um borbulhar na barriga. E, então, atravessámos o túnel. Para quem ia a pé, era muito grande. E, era verdade, tinha segredos.
Tínhamos que andar pelo lado esquerdo da linha, onde havia uma distância maior até à parede do que o lado direito (dizia-se que quem caminhasse pelo lado errado, era apanhado pelo comboio). E havia uma guarita escavada na parede de tijolo carbonizado, que mais parecia um cinzeiro gigante (era onde o Drogado esperava). Mas, por fim, atravessámo-lo. Até com o comboio a passar. Só que, com os segredos descobertos, o Túnel da Bruxa já não era muito mais do que o Túnel de Xabregas.
Então, sem largarmos o nosso troço de linha, passámos ao desafio seguinte: encafuávamo-nos nas estruturas metálicas das pontes e sentíamos a voragem dos comboios que passavam a centímetros sobre as nossas cabeças. Aventura.
Para nós, os comboios cruzavam-nos a vida de um modo que recordo com paixão. Aliás, ainda hoje, adoro o cheiro forte do óleo esquecido por uma automotora nas tábuas da linha. Reminiscências da viagem.
Fotografia da autoria de Joe Paduano

Naquelas tardes de Verão, já não se viam caricas junto ao Túnel da Bruxa. Mas chegámos a ver o Drogado. Só que o medo tinha já sido trocado por um borbulhar na barriga. E, então, atravessámos o túnel. Para quem ia a pé, era muito grande. E, era verdade, tinha segredos.
Tínhamos que andar pelo lado esquerdo da linha, onde havia uma distância maior até à parede do que o lado direito (dizia-se que quem caminhasse pelo lado errado, era apanhado pelo comboio). E havia uma guarita escavada na parede de tijolo carbonizado, que mais parecia um cinzeiro gigante (era onde o Drogado esperava). Mas, por fim, atravessámo-lo. Até com o comboio a passar. Só que, com os segredos descobertos, o Túnel da Bruxa já não era muito mais do que o Túnel de Xabregas.
Então, sem largarmos o nosso troço de linha, passámos ao desafio seguinte: encafuávamo-nos nas estruturas metálicas das pontes e sentíamos a voragem dos comboios que passavam a centímetros sobre as nossas cabeças. Aventura.
Para nós, os comboios cruzavam-nos a vida de um modo que recordo com paixão. Aliás, ainda hoje, adoro o cheiro forte do óleo esquecido por uma automotora nas tábuas da linha. Reminiscências da viagem.
Fotografia da autoria de Joe Paduano
Etiquetas: Lisboa, Transportes
2 Comments:
Caro amigo: em boa hora vim aqui dar. Deixo-te outra história (mais antiga) do túnel da bruxa, que teve honras radiofónicas na Antena 1, na História Devida e cujo epílogo entronca neste escrito. Qualquer semelhança entre o puto daqueloutra história e penteados futuristas é mais que coincidência. Um abraço
Confesso que muita era a vontade de repescar dias sobre os quais sinto (sentimos, arrisco) particular emoção. Decidi-me a escrever sobre o Túnel da Bruxa.
A curiosidade levou-me ao Google e aí descobri o BicLaranja, o Ramona e o Armando. Entre mim e o Pedro, foram cinco minutos de dedução para perceber que só podias ser tu por ali.
No fim-de-semana, cruzei o BicLaranja. Foram duas boas horas.
Um abraço
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