Perdidos por Fés (2003.03.01)
Já era noite quando chegámos a Fés. Os candeeiros pouco ajudavam, mas percebia-se a muralha da Medina à nossa esquerda. Ali dentro algures, tínhamos duas camas à espera. Agora, só faltava mesmo o golpe de sorte que nos mostrasse o caminho. Porque, até ver, era oficial: estávamos perdidos.
Na rua, os albornozes cruzavam-se como formigas, entre uma procissão de Mercedes amolgados e carroças a entulharem o alcatrão. Parecia que ninguém tinha vontade de ir jantar a casa. Em contraste, o silêncio era total dentro do jipe. Com receio da resposta, ninguém arriscava perguntar. Mas nada tinha mudado: eu não sabia por onde estava a ir.
Às tantas, cansei-me e parei. Supostamente, para olhar para o mapa. Na realidade, para respirar um pouco e orientar as ideias.
Foi o suficiente para as formigas voltarem a cabeça. E subitamente, um a um, apareceram todos os guias amadores da cidade. Há sítios onde os desempregados se tornam pedintes. Aqui, fazem-se guias.
Farto de estar perdido e de enxotar um coxo e depois um barbudo, fiz por me ver livre da desconfiança. O Mohammed até podia ser um habitué nos alinhamentos das esquadras de polícia, mas o maior dos nossos riscos era dormirmos na rua. Então, abri-lhe a porta do carro: “Tem a certeza que sabe onde fica o hotel?”
Ser céptico não me garantiria uma almofada para a noite. E confiar no Mohammed levou-nos direitos aos nossos quartos e a uma tajine de cabrito. Os espíritos estavam renovados, mas para mim iniciou-se uma história de inimizade com a cozinha marroquina.
No dia seguinte, pouco mudou. Sentíamo-nos perdidos. Mas, desta vez, o Mohammed levava-nos por um cenário de filme de época. Aquelas ruas estavam ali desde 789, toscas e velhas como um carvalho retorcido que não se deixa de admirar. E a fazer de Fés a cidade mais intemporal e extraordinária que Marrocos tem para oferecer.
Que sempre assim fique. Inch’Allah.
Na rua, os albornozes cruzavam-se como formigas, entre uma procissão de Mercedes amolgados e carroças a entulharem o alcatrão. Parecia que ninguém tinha vontade de ir jantar a casa. Em contraste, o silêncio era total dentro do jipe. Com receio da resposta, ninguém arriscava perguntar. Mas nada tinha mudado: eu não sabia por onde estava a ir.

Foi o suficiente para as formigas voltarem a cabeça. E subitamente, um a um, apareceram todos os guias amadores da cidade. Há sítios onde os desempregados se tornam pedintes. Aqui, fazem-se guias.
Farto de estar perdido e de enxotar um coxo e depois um barbudo, fiz por me ver livre da desconfiança. O Mohammed até podia ser um habitué nos alinhamentos das esquadras de polícia, mas o maior dos nossos riscos era dormirmos na rua. Então, abri-lhe a porta do carro: “Tem a certeza que sabe onde fica o hotel?”
Ser céptico não me garantiria uma almofada para a noite. E confiar no Mohammed levou-nos direitos aos nossos quartos e a uma tajine de cabrito. Os espíritos estavam renovados, mas para mim iniciou-se uma história de inimizade com a cozinha marroquina.
No dia seguinte, pouco mudou. Sentíamo-nos perdidos. Mas, desta vez, o Mohammed levava-nos por um cenário de filme de época. Aquelas ruas estavam ali desde 789, toscas e velhas como um carvalho retorcido que não se deixa de admirar. E a fazer de Fés a cidade mais intemporal e extraordinária que Marrocos tem para oferecer.
Que sempre assim fique. Inch’Allah.
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